sexta-feira, 9 de março de 2007

CAPÍTULO 3: CEGOS PELA LUZ

CAPÍTULO 3: CEGOS PELA LUZ


(...) SINAL ENCONTRADO: EXPERIÊNCIA HERMANO, SALA DE INTERROGATÓRIO, VISUALIZAÇÃO INTERNA: O detetive olha-me com uma expressão analítica. Observa meus gestos e o tom da minha voz. Todas suas impressões são anotadas em um bloco de notas. Não sei quais objetivos ele quer chegar com o interrogatório. Estamos todos na delegacia entorpecidos pelo tédio. O detetive não se abala com nada, pois é o único que tem o controle da situação. E se ele perder a paciência com a minha falta de respostas? Propus quebrar com aquele padrão de interrogatório, inserindo uma abordagem mais abstrata, para fugir daquela linearidade. Fui novamente interrompido por ele, pois não sou eu que dito as regras do jogo.

- Senhor Jonas, você não está querendo cooperar. Sabe que está piorando esta situação. – O detetive continua me encarando, rodando a caneta entre os dedos, demonstrando um leve sinal de impaciência.

- Então me prenda logo, está querendo saber de mim o que eu não sei. – Provoco o detetive para ver sua reação. Ele esboça um leve sorriso irônico, voltando novamente ficar sério.

- Cadeia não irá servir de nada para você. Sei que se eu te internar numa clínica, vai ficar tão vulnerável para me obedecer completamente.

- Isso apenas nos coloca de volta ao ponto de partida. Se eu recomeçar tudo de novo, faz com que esse momento seja perdido pra sempre. – Entro no jogo do detetive, em uma tentativa para descobrir quem enlouquece primeiro. – Estamos em um mundo insano. Talvez tenhamos um pouco de sorte por sermos seres em observação. Se você me colocar novamente no hospício, estará continuando com o ciclo interminável de destruição. Tudo voltará a acontecer novamente. Não percebe que estamos presos por uma força maior. Não veremos nenhuma saída enquanto você continuar insistindo no erro.

- Não me venha com devaneios. Presos por uma força maior? - O detetive perde sua linha de raciocínio da mesma maneira que eu havia planejado.

- Eu não posso explicar com exatidão... É algo abstrato, subjetivo, da mesma maneira como percebemos o tempo. Transforma o conceito de eternidade possível. Presente, passado e futuro não passam de uma mera ilusão para quem conhece esta nossa nova realidade. Temos medo do que está por vir. Ainda não estamos preparados para o próximo passo.

- Discordo, o tempo é apenas abstrato para os idiotas, entorpecidos em seus delírios. O tempo segue uma lógica tão exata, que transcende nossa consciência. O tempo pertence a uma quarta dimensão, situado em um espaço em constante transformação. A ordem como o tempo acontece, possibilita o nosso poder de escolha. Sempre planejamos o futuro pensando nas consequências de nossas ações feitas no presente. Todos nós seguimos um padrão parecido. Sei que isso foge nosso propósito nesta conversa. Mas fiquei intrigado sobre essa “nossa nova realidade”.

- O que você chama de realidade, eu chamo de alucinação coletiva. Nossos atos são instigados por outra pessoa, que pensa ter o controle de tudo.

- Isto envolve as chacinas que estão acontecendo?

- Em parte sim. Não sei muita coisa sobre estes rituais que acabam em morte. Apenas luto contra corporações que se acham acima do bem e do mal. – O detetive caminha em torno de mim. - Eu só quero me sentir livre desta opressão. Tento dormir e não tenho sono, muito menos tenho energia para ficar acordado. É um pesadelo viver assim.

- O que me irrita, é você criar problemas fora de propósito. Não estamos progredindo com você. Não consegue nem acompanhar meu raciocínio. Eu só quero que responda apenas ao que eu perguntar.

- Respostas e mais respostas. Se quiser entender essa loucura, precisa saber que não existe uma resposta definitiva. – Falo bem próximo ao rosto dele, mostrando que não estou intimidado. - Ao invés de respostas, procuro perguntas que me levam as mais outras perguntas, é assim que as coisas progridem por aqui. É esse tipo de questionamento que faz alguma coisa mudar.

- Fica bancando o revolucionário revoltado, quando não passa de um homem cheio de delírios.

- Quem é você para falar em delírio? Então por qual razão para você arrancou os olhos do Ismael? Por sorte ele não morreu.

- Não fui eu que arranquei os olhos do mendigo Ismael, foi outra pessoa que fez isso. Existem outras pessoas se passando por mim. Estamos investigando a presença de um impostor que se passa por várias pessoas. Conhecido com o Senhor Ninguém.

- Não o conheço, só ouvi falar. Deveria buscar respostas na corporação responsável pelo LD50.

- A mim só cabe desvendar a chacina do Café Miragem. Ainda acredito que você está envolvido nesta chacina junto com a turma de loucos do Ismael. Se não colaborar, jamais encerraremos este caso.

- Quer saber de uma coisa? Você está mais perto das respostas do que qualquer outra pessoa. Olhe ao seu redor e veja quantidade de viciados por todos os cantos. O que aconteceu naquele ritual está para se repetir com outras pessoas, de uma maneira mais inusitada. Se estivermos lúcidos, ainda podemos talvez sair dessa vala.

- Acha que eu sou como você? Um perdido? – Respondo afirmativamente com a cabeça, deixando o detetive mais irritado. – Quer saber como eu me mantenho lúcido? Eu procuro formular uma conta simples matemática na minha cabeça. Se eu me perder durante o raciocínio, é sinal que não estou tão concentrado como deveria. Mas quando eu nem consigo visualizar os números, significa que não estou mentalmente saudável. Pode ser falta de sono, ou até stress do cotidiano. Quando não existe disciplina mental, pode perder totalmente seu propósito e objetivo. Tem muitos estímulos lá fora que nos tiram facilmente a concentração. Manter a mente saudável é tão importante quanto uma alimentação balanceada e exercícios físicos.

- Se está tão lúcido, então tente provar que isto é real. Me convença que não sou fruto da sua mente, nem você da minha.

- Não me faça perder nessas suas viagens na maionese. Vamos retornar do princípio. Agora onde foi que começamos? - O detetive para de me encarar, para tentar encontrar meu dossiê. Quando percebe que já não está com a mesma concentração de antes, volta a falar comigo. - Creio que infelizmente tenho que ignorar o interrogatório e seguir adiante nas investigações.

- Saiba que esse nosso diálogo será importante em sua jornada. – Consigo finalmente derrotar o detetive, colocando-me na posição de mentor. - Agora é hora resgatar o tempo perdido. Não tente se apegar a informações. Procure apenas atacar a fonte de todos esses problemas.

- Não vou mais perder tempo contigo. Vamos nos encontrar novamente. Terá tempo suficiente para tratar seus distúrbios. Espero que sobreviva até o nosso próximo encontro.

- O sanatório irá ruir. Uma rebelião acontecerá em breve.

- Como sabe disto? – O detetive fica surpreso com uma informação inesperada.

- Christian me contou tudo o que preciso saber.

- Quem é Christian?

- O traficante de informações da cidade. É ele que sabe mais sobre o caos envolvendo o LD50.

- Como eu chego até ele?

- Ele vai te procurar quando chegar a hora. (...)

(...) TRANFERÊNCIA DE SINAL: EXPERIÊNCIA SR. NINGUÉM, CAFÉ MIRAGEM, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Sentado sozinho em uma mesa próxima a janela, avisto todo o movimento da estação de transportes. Observo todas as pessoas ao meu redor. Estou dentro do maior ponto de encontro dos pseudos intelectuais, o Café Miragem. Aqui é repleto de pessoas prepotentes e egocêntricas, onde desperdiçam suas vidas vazias e sem significados. Discutem todos os dias futilidades do cotidiano, repetindo o mesmo discurso sempre. Os seres invisíveis são os únicos a darem atenção aos monólogos dos intelectuais. Gosto de isolar-me deste tipo de companhia, preferindo observar as multidões que transitam fora daqui. Sentado perto da janela consigo ter a melhor vista do calçadão. É o meu portal simbólico entre essa vida interna conservadora e o universo caótico. Todos nós funcionamos como peças que compõe uma complicada engrenagem, com cada pessoa servindo a um propósito específico. Cidadãos desempenham diariamente importantes funções dentro da sociedade, onde ninguém é menos importante. Admiro um a um, surpreendendo-me sempre neste cotidiano nada banal. A agitação das ruas quebra a monotonia deste lugar sem graça. Amo os apressados do serviço, os batedores de carteira, catadores de lixo, personalidades políticas e religiosas, sindicalistas, vendedores ambulantes. Adoro os guardas da lei, os alegres boêmios, inclusive os temidos traficantes. Observo com atenção o mendigo, com sucessos e fracassos na conquista de um pão para sobreviver. O sol brilha para todos os que circulam em frente ao Café Miragem. Abençoadas sejam todas as formas de vida ativa no universo...
Noto a presença de um ser sombrio, camuflado em seu, sobretudo e chapéu enorme, tendo as mãos ensanguentadas, como única mostra de chaga do corpo. Caminha de maneira apressada por todos os lados, indo e vindo diante da minha vista. Não faz mais de uma hora que estou observando. Percebo neste curto período temporal, suas rápidas aparições e sumiços, em diversos pontos. Como pode um homem estar em vários lugares, em uma rapidez assombrosa? Em cada vez que o vejo, surge um maior interesse em decifrar aquela anomalia, tirando toda aquela minha admiração pelos demais pedestres. Fico em transe, na expectativa de reencontrá-lo mais uma vez. Percebo mais detalhes ao meu redor. Sinto claustrofobia neste lugar, vejo tudo embaçado aqui dentro. Enquanto lá fora, torna-se sombrio e assustador, piorando sempre quando ressurge o ser misterioso. Resolvo segui-lo, no intuito de descobrir os mistérios que rodeiam os pensamentos deste sujeito...
Ao abrir a porta do café, deparo-me com a multidão que antes observava atentamente. A minha presença continua sem importância no meio de todos eles. Esbarram constantemente em mim, sem pedir perdão, ou sem se importarem com que fizeram. Apenas seguem seus caminhos, ignorando os demais do meio do percurso. Sigo em frente, sempre tentando encontrar aquele homem, no meio de tantas pessoas. Finalmente deparo-me com ele, caminhando no mesmo ritmo apressado. Só que desta vez não ele vai fugir de mim, vou seguindo para onde ele for. Os detalhes nele, antes imperceptíveis, agora aparecem de forma mais nítida. Seu rosto é retalhado por cacos de vidro, pele pálida, com aparência mórbida. Em um dos bolsos do seu enorme, sobretudo, existe um punhal, com o cabo no formato de uma víbora. No outro bolso está uma caixa azul, contendo diversos itens, entre eles uma droga chamada LD50...
No meio do longo percurso, sou levado a diversos lugares que jamais havia visto. Tudo vai ficando mais diferente e estranho, na medida em que avançamos, ou retrocedemos no caminho. Durante todo esse tempo de perseguição, ele sequer notou minha presença, sem se importar com qualquer um de nós. O máximo de contato que ele mantém, é quando esbarra em alguém, ou toca na mão de uma pessoa, entregando-lhe um item (parecendo ser infinito o número de presentes) da caixinha azul. Cada um que recebe seu “presente” entra em uma espécie de transe, ou tem uma profunda alteração comportamental...
As ruas não vão ficando mais estreitas e perigosas, quando adentramos no coração da cidade. O ambiente sombrio e hostil são quebradas por luzes pulsantes em um forte néon, criando uma ilusão exótica destes lugares. Os cemitérios, boates, bares de todos os tipos, fazem parte dos seus diversos pontos de passagem...
Nem mais me lembro por quanto tempo estou perseguindo, sinto-me sua sombra. Seu comportamento continua uma incógnita para mim. Esqueci o que é deslumbramento, nem me importo mais com o novo. Pareço ter vivenciado isto, em algum momento distante. Inclusive as ações cotidianas das demais pessoas tornam-se mais previsíveis. Em cada lugar diferente, uma nova emoção, adrenalina misturada com medo, que me levam adiante nesta jornada...
Paredes, muros e portas são invisíveis para nós dois, não havendo mais barreiras que nos façam parar de vez. Ainda não sei quem ele é tampouco nem sei dizer mais quem eu sou. Somente as ruas e lugares fazem parte da minha identidade. Não somos mais percebidos por pessoas comuns. São poucos os que notam nossa existência. Gritam de vez em quando pelo nome “Trent Wayman”, quando conseguimos precisam dele. Afinal Trent Wayman, é uma pessoa, ou uma assombração? Acredito que seja apenas o principal responsável por levar perdição para muitas vidas...
A corrida para não perdê-lo aumenta constantemente. Entre tantos lugares percorridos, sou levado pela primeira vez ao farol que ilumina a cidade. Uma forte luz passa por mim, cegando-me por alguns minutos. Tempo suficiente de nunca mais ver Trent Wayman em minha vida. Fico estático, um pouco fatigado pela longa viagem, sobrando apenas um pacote contendo uma dose de LD50 na minha mão direita. Só assim retorno ao meu ponto origem, o Café Miragem, o local mais monótono e parado da cidade. Sento-me no mesmo lugar de antes, desta vez observando a forte luz do farol, que faz lembrar os lugares em que estive. Dentro do ambiente preto e branco, em que estou agora, espero minhas energias restabelecerem novamente. Estou estático como os demais. Apenas olho para o chá fervendo, e a dose de LD50 ainda fechada. Resolvo então descobrir o efeito da dose, misturando tudo no meu chá...
No ultimo gole, meu corpo ganha uma nova vida, tendo uma interligação misteriosa com os usuários desta droga. Descubro que sou movido pela vontade do meu pensamento, finalmente desprendendo-me tudo que me aprisiona. Essa nova liberdade já conhecia antes, agora realmente percebo que pertenço às multidões. Eu não sou um, mas todos ao mesmo tempo. Tornei-me a consciência coletiva dos demais. Antes seguia a figura de Trent, para tentar encontrar o que eu não havia descoberto nas pessoas. Acabei encontrando a universalidade, sintetizada em um alucinógeno transcendente. Sou capaz de estar em todos os lugares, sem nenhuma restrição cronológica. Renego minha vida e meu passado, para viver emoções presentes, em qualquer lugar diferente. Agora estarei sempre observando vocês, como um figurante onipresente, representando todos e ninguém ao mesmo tempo...

(...) DESVIO DE SINAL: EXPERIÊNCIA GIULIA, CLUBE ECLIPSE, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Minha mente está no céu, enquanto meu corpo está curtindo todos os prazeres da carne, bem aqui em baixo. Um inferno, eu definiria esta festa de viciados. Christian é o único que me protege, mas ao mesmo tempo me deixa muito mais doida. Às vezes cheiro, pouco fumo e injeto mais que gostaria. Mesmo assim não consigo tirar o forte trauma da memória, muito menos atingir o gozo supremo. Ele me beija, me come, vive me drogando, só para continuarmos juntos.
Neste lugar pequeno e claustrofóbico, divido minha loucura com os demais seres anormais. Eu rodo, pulo e caio na pista de dança. Acho que é único lugar para quem não possui tristeza e infelicidade. Parece que só tem gente alegre que finge estar bem com a vida. O clube Eclipse é o lugar mais agitado e menos assustador desta cidade.
Todos que se perderam, buscam um atalho em meio à escuridão, tentando encontrar a luz da libertação. Infelizmente essa luz divina, só tem cegado esses alucinados, mantendo-os em uma prisão mais tortuosa. Eu busquei a maldita iluminação no LD50. Percebo que ainda estou procurando a lanterna dos afogados, como diz a música. Pensava que Christian pudesse me salvar, mas ele insiste em me afogar nesta loucura. Apesar de tudo ainda o amo. Ele tem um tipo de amor doentio, fazendo sentir-me sua escrava sexual, por suas taras sado masoquista. Só de pensar, sinto uma enorme vontade de vomitar sangue, como da ultima vez. Aquela horrível lembrança foge da mente, para dar lugar ao êxtase da curtição do momento.
Christian resolve me levar na cobertura da boate, junto de mais alguns chegados (não muito íntimos), para vermos toda cidade iluminada pela luz do farol. Ele nos propõe uma viagem psicodélica neste lugar, dando-nos um novo tipo alucinógeno. Fico puta, quando ele resolve nos usar como uma de suas cobaias. O efeito da droga nos proporciona um estágio de letargia avançada, buscando revelar os nossos sonhos mais escondidos no fundo do inconsciente. Vagamente o sonho desvendado pela droga torna-se muito angustiante. Chega causar calafrios aos demais, que estavam conosco ao ar livre. Éramos assistidos por um homem, sentado na ponta de um arranha-céu, parecendo um arcanjo enviado para ser espectador desta enorme alucinação. Ele continua observando, esse imenso ato de autodestruição, enquanto cada um de nós (apesar de cada um estar imerso em seus sonhos mais íntimos) se reveza na posição central do círculo, para receberem impacto emocional das sensações compartilhadas. Recebíamos das mais variadas formas de reação emocional. Muitas vezes vinham em sentimentos de culpa, ou de sofrimentos expressados pela dor mais concreta possível. Sangrávamos, sofríamos enormes espasmos, vindos seguidamente de muito vômito e muita enxaqueca. E chega minha vez em assumir meu lugar no circulo. Uma força misteriosa cai sobre mim, na velocidade de um raio. Descrevo-o como uma penumbra azul imensa, provocando um calafrio instantâneo. Uma vez completada meu lento e programado “ímpeto onírico”, levanto novamente, saltando para alto e muito longe, flutuando levemente sobre os demais companheiros. Quando recomeço descer rapidamente, não consigo encostar-me ao chão. Os especuladores nada dizem, apenas continuam essa troca de experiências. Depois veio um tumulto de proporções imaginárias tão estranhas, que poderia se qualificar como uma morte lenta da alma...
Sentíamos o caos abaixo de nós, causada pela brutalidade de policiais invadindo nosso ultimo exílio. Estamos salvos aqui em cima, mas faria de tudo para descer e sair dessa. O povo tinha se revoltado contra os invasores, como consequência restaram-lhe tiros que perfuram os seus corpos. Os sobreviventes estavam deitados, com medo de serem atingidos. Já estava prevendo isso, quando flutuei por todos eles, sentindo a figura de Frank vindo atrás de todos nós. Christian estava perplexo, observando a maneira em que estava estremecida. Minha mão tremia sem parar, olhos ainda bastante dilatados, mesmo assim conseguia ver os corpos dos demais companheiros do circulo completamente congelados pelo frio idealizado por nós. Estava em outra dimensão, onde tinha a visão de rosas abrochando e desabrochando rapidamente. Os olhos de Christian lacrimejam como nunca vi. Escuto sua voz em minha mente: “Tentei tirar sua pior lembrança de seu pensamento. Mas o que nós fizemos, não tem mais volta. Me perdoa por esse fracasso? Ainda te amo”. Continuo sem entender o que ele queria dizer. Os policiais começam subir as escadas. Senti naquele momento o pior medo de toda minha vida. O suor percorre todo o meu corpo. Tenho uma forte contração no útero, dilatando instantaneamente minha vagina, escapando muito sangue e outras coisas que nem identifiquei naquele estado. Parecia uma bomba que estourava dentro de mim. Naquele pior momento de dor, Christian se liberta do transe. Eu berro, liberando toda energia ruim acumulada. Volto ao meu trauma antigo. Revejo um feto todo deformado e cheio de bolhas, enroscado no enorme cordão umbilical. Estava praticamente perdendo aos poucos minha vida, enquanto Christian tentava manter-me viva. Ele retirou o cordão umbilical preso à vagina e usou a sua camisa para tampar o forte sangramento. Volto ao presente, com Christian novamente ao meu lado. Procura acariciar-me bastante, mostrando todo o cuidado que antes não demonstrara. Sussurra em meu ouvido, dizendo palavras esperançosas, conseguindo finalmente me acalmar. Olho para o alto e vejo o homem parado no arranha-céu. Sinto-me viva e afastada da morte. Continuo nos braços de Christian, ele ainda chorando, com o seu fracasso e na vulnerabilidade em que ficamos. Mesmo ele se sentindo culpado por toda essa situação, me entrego a sua vontade. Ele ainda consegue me passar uma sensação de paz e esperança, que me salvam desta tormenta...
Fecho os olhos e vejo uma luz azul, com Christian me esperando para revelar um segredo. Mergulho fundo na luz, em um local escondido chamado “Azul Profundo”. Sabia que havia sido feliz de verdade, tinha lucidez e inteligência para realizar meus sonhos. A morte trágica da minha filha levou-me a esta situação. O trauma fez com que confiasse em Christian e nos demais traficantes. Pelo menos apaguei da memória os detalhes horrendos, não voltando a me torturar mais. Apenas ficou na lembrança algo perdido, sendo Christian a única pessoa que pode me salvar...
Abro os olhos, vendo os policiais invadindo o local, disparando balas sem parar. Isto não impede de Christian me carregar em seus ombros, abrindo uma porta para saída de emergência. Quando os tiros são disparados em nossa direção, já estávamos descendo a escadaria sem degraus. Logo penso: “isso só pode ser mais uma alucinação”. Na velocidade da descida, perco minha consciência, esquecendo um pouco da dor. Apenas com a vontade de adentrar novamente no vasto “Azul Profundo”.

(...) NOVO TIPO DE SINAL ENCONTRADO: EXPERIÊNCIA DOUGLAS, CASA, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Levanto-me desesperadamente daquele pesadelo, com o mesmo medo vivido durante o sonho. Toda a minha cama está encharcada de suor. Tento manter-me firme no chão. Toda imagem, que estou enxergando no momento é distorcida. Fecho meus olhos. Tenho recordações do carro capotando em meu sonho, onde tive o temor de morrer naquele momento. Não me recordo do que fiz ontem. O sonho foi mais intenso do que qualquer experiência vivida durante a vigília. O relógio mostra o quanto estou atrasado. Hoje não é um bom dia para sair de casa, mas não tenho mais alternativas. Já inventara diversas justificativas para faltar no trabalho. Pressinto que algo de ruim está para acontecer. Sinto-me destinado a viver uma tragédia, porém tento ignorar meu negativismo. Lembro-me do livro “Manual para Sobreviver ao Apocalipse”, que ajudou a mudar minha percepção sobre a realidade. Havia um capítulo que ensinava como sair de uma alucinação: “Teste sempre o limite do que pode ser real, ou imaginário”. Olho para o relógio novamente e vejo as horas. Os números continuam no mesmo lugar. Tento acender e apagar as luzes. Tudo volta a funcionar novamente. Acho que não estou alucinado. Estou mesmo é fora de orbita. Preciso colocar minha vida “nos trilhos” novamente.

A única via de acesso que eu utilizo para trabalhar está altamente congestionada. O ritmo frenético desta cidade me enlouquece a cada dia. Estou prestes a explodir no meio de tantos carros parados. Nunca me atrasei para o serviço e gosto de chegar adiantado para evitar este tipo de situação. Sinto ter vivido tudo isso, em algum momento em minha vida. Estou voltando a refletir minhas ações. Há muito tempo não parava pra pensar sobre nada. Percebo que preciso relaxar um pouco. Apenas fecho meus olhos por um instante e sou transportado para a mesa do meu serviço. Não me assusto com a situação um tanto surreal. Sei que não me teletransportei. Só estou meio desligado.

Não consigo mais trabalhar. Apenas continuo olhando para a imensa pilha de papéis. As pessoas ao meu redor movem rapidamente, como um filme em fast foward. O tempo deixa de ser tão acelerado, quando finalmente meu chefe percebe que ainda não comecei a trabalhar. Ele fala algo que não consigo entender. Simplesmente respondo que estou me sentindo muito mal. Ele acaba rindo de mim e fala algo incompreensível. Tudo volta acontecer em um ritmo cada vez mais frenético e nauseante. Não consigo mais enxergar direito. Só vejo borrões de imagens percorrendo todo este espaço, em uma velocidade que meus olhos não conseguem mais acompanhar. Vou ao banheiro e sinto o chão balançar, como se fosse um navio em alto mar. Finalmente acho à privada e consigo parar o tempo depois de vomitar. Lavo meu rosto, quando olho no espelho várias camadas de imagens, todas mostrando muitas situações bizarras e incompreensíveis. No momento em que toco o espelho, sinto um líquido gelatinoso, ocupar o espaço daquele vidro sólido. Uma fenda abre no espelho e toda energia de dentro começa modificar a realidade presente, como se eu entrasse em contato com uma dimensão superior. Aos poucos sinto a ausência de gravidade e o meu corpo funde com a imagem projetada no espelho. Com a união de corpo físico e projetado, vou levitando devagar, ficando com as mãos e os pés soltos no ar. Nada poderia impedir-me de curtir aquela viagem astral. Aquele banheiro público se transforma em um espaço único, separado de todas as influências externas. Já havia escutado muitas teorias sobre a hiper-dimenção, mas para mim não havia definição para este momento. Somente uma força maior poderia tirar-me daquele estado. Consigo saltar levemente de uma parede a outra, caindo no chão elástico, para depois esboçar alguns passos no teto. Vejo a luz do teto ganhar tons azulados, enquanto o som do mar preenche todo o espaço e o piso imundo vira um imenso tanque de mergulho. Vou em direção da água, mergulhando em um calmo vazio, afundando naquele azul profundo. Aos poucos vou percebendo a realidade da situação. Recupero minha lucidez, saindo finalmente desse transe. Sinto que não sou mais o mesmo depois desta experiência. Percebo as privadas e pias transbordando água sem parar, inundando o banheiro cada vez mais. Faxineira e zeladores abrem a porta do banheiro inundado, liberando a forte quantidade de água, que agora transborda por toda a repartição. Eu estou ainda caído no chão, curtindo um pouco do que restava daquela loucura. Os serventes tentam me reanimar com leves tapas em meu rosto. Volto aos poucos para aquela ordinária realidade. Ou será que estou em mais uma representação do que pode ser real?


Um pouco mais tarde, os encanadores, policiais e muita gente estranha começaram investigar o ocorrido. Meu chefe e um detetive metódico tentam arrancar alguma resposta de mim. Estou ainda confuso demais para responder. Infelizmente ainda não voltei cem por cento, continuo com a mesma enxaqueca da manhã. Eu só quero voltar para casa. Finjo que está tudo bem e que consigo continuar trabalhando até fim do dia. Aos poucos o ambiente vai ficando vazio, sendo eu um dos últimos ainda no recinto. Já anoiteceu e finalmente acaba mais um horrível dia de trabalho. Já não é a primeira vez que passo mal no serviço. Sinto que a qualquer momento eu possa explodir no meio de todo mundo.

Pego o carro e consigo dirigir em alta velocidade. Ao chegar perto do túnel, toda a tontura retorna. Sinto pânico e claustrofobia, ao perceber que não há nenhuma iluminação dentro do túnel. Desvio de vários veículos mal iluminados, quase provocando um acidente. Aquela escuridão parece não ter mais fim. Sinto que estou dentro de uma nuvem de fumaça preta. Fico eufórico com respiração ofegante. Só volto ao normal quando saio da escuridão. Uma luz alta vem em minha direção. Não consigo enxergar direito. Quando me dou conta da situação, percebo que estou prestes a bater em um enorme caminhão. Gostaria voltar ao início do dia, quando ainda podia ficar em casa com segurança. O tempo fica mais lento, quando finalmente meu carro colide com o caminhão. Minha percepção fica mais aguçada. Vejo que na calçada ao lado tem um mendigo com uma placa ilegível. Ele ri como se fosse o único a entender a tudo que está acontecendo. Para mim só resta sentir os destroços da lataria prensando todo meu corpo, enquanto estilhaços de vidro retalham minha face. A sensação de dejá-vù parece martelar o tempo todo em minha mente. O carro capota várias vezes, tempo suficiente para tentar voltar ao mundo surreal que tinha vivenciado. Posso novamente moldar uma nova realidade.

Com um movimento rápido dos olhos, desperto daquele pesadelo. Sinto minha cama fedendo a suor e urina. Tive o sonho mais lúcido da minha vida. Tento lembrar de novo o que tinha feito anteriormente para passar tão mal. Continuo com a mesma enxaqueca do sonho. Meu dia não passou de uma ilusão. Não sei o que aconteceu comigo ontem. Tudo parece estar de volta no seu devido lugar. Ligo a televisão e vejo as mesmas notícias que sonhei. Olho para o calendário e fico em estado de choque. Tenho quase certeza que ainda estou preso no mesmo dia do sonho. Talvez eu não tenha sonhado afinal...

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