sexta-feira, 9 de março de 2007

CAPÍTULO 3: CEGOS PELA LUZ

CAPÍTULO 3: CEGOS PELA LUZ


(...) SINAL ENCONTRADO: EXPERIÊNCIA HERMANO, SALA DE INTERROGATÓRIO, VISUALIZAÇÃO INTERNA: O detetive olha-me com uma expressão analítica. Observa meus gestos e o tom da minha voz. Todas suas impressões são anotadas em um bloco de notas. Não sei quais objetivos ele quer chegar com o interrogatório. Estamos todos na delegacia entorpecidos pelo tédio. O detetive não se abala com nada, pois é o único que tem o controle da situação. E se ele perder a paciência com a minha falta de respostas? Propus quebrar com aquele padrão de interrogatório, inserindo uma abordagem mais abstrata, para fugir daquela linearidade. Fui novamente interrompido por ele, pois não sou eu que dito as regras do jogo.

- Senhor Jonas, você não está querendo cooperar. Sabe que está piorando esta situação. – O detetive continua me encarando, rodando a caneta entre os dedos, demonstrando um leve sinal de impaciência.

- Então me prenda logo, está querendo saber de mim o que eu não sei. – Provoco o detetive para ver sua reação. Ele esboça um leve sorriso irônico, voltando novamente ficar sério.

- Cadeia não irá servir de nada para você. Sei que se eu te internar numa clínica, vai ficar tão vulnerável para me obedecer completamente.

- Isso apenas nos coloca de volta ao ponto de partida. Se eu recomeçar tudo de novo, faz com que esse momento seja perdido pra sempre. – Entro no jogo do detetive, em uma tentativa para descobrir quem enlouquece primeiro. – Estamos em um mundo insano. Talvez tenhamos um pouco de sorte por sermos seres em observação. Se você me colocar novamente no hospício, estará continuando com o ciclo interminável de destruição. Tudo voltará a acontecer novamente. Não percebe que estamos presos por uma força maior. Não veremos nenhuma saída enquanto você continuar insistindo no erro.

- Não me venha com devaneios. Presos por uma força maior? - O detetive perde sua linha de raciocínio da mesma maneira que eu havia planejado.

- Eu não posso explicar com exatidão... É algo abstrato, subjetivo, da mesma maneira como percebemos o tempo. Transforma o conceito de eternidade possível. Presente, passado e futuro não passam de uma mera ilusão para quem conhece esta nossa nova realidade. Temos medo do que está por vir. Ainda não estamos preparados para o próximo passo.

- Discordo, o tempo é apenas abstrato para os idiotas, entorpecidos em seus delírios. O tempo segue uma lógica tão exata, que transcende nossa consciência. O tempo pertence a uma quarta dimensão, situado em um espaço em constante transformação. A ordem como o tempo acontece, possibilita o nosso poder de escolha. Sempre planejamos o futuro pensando nas consequências de nossas ações feitas no presente. Todos nós seguimos um padrão parecido. Sei que isso foge nosso propósito nesta conversa. Mas fiquei intrigado sobre essa “nossa nova realidade”.

- O que você chama de realidade, eu chamo de alucinação coletiva. Nossos atos são instigados por outra pessoa, que pensa ter o controle de tudo.

- Isto envolve as chacinas que estão acontecendo?

- Em parte sim. Não sei muita coisa sobre estes rituais que acabam em morte. Apenas luto contra corporações que se acham acima do bem e do mal. – O detetive caminha em torno de mim. - Eu só quero me sentir livre desta opressão. Tento dormir e não tenho sono, muito menos tenho energia para ficar acordado. É um pesadelo viver assim.

- O que me irrita, é você criar problemas fora de propósito. Não estamos progredindo com você. Não consegue nem acompanhar meu raciocínio. Eu só quero que responda apenas ao que eu perguntar.

- Respostas e mais respostas. Se quiser entender essa loucura, precisa saber que não existe uma resposta definitiva. – Falo bem próximo ao rosto dele, mostrando que não estou intimidado. - Ao invés de respostas, procuro perguntas que me levam as mais outras perguntas, é assim que as coisas progridem por aqui. É esse tipo de questionamento que faz alguma coisa mudar.

- Fica bancando o revolucionário revoltado, quando não passa de um homem cheio de delírios.

- Quem é você para falar em delírio? Então por qual razão para você arrancou os olhos do Ismael? Por sorte ele não morreu.

- Não fui eu que arranquei os olhos do mendigo Ismael, foi outra pessoa que fez isso. Existem outras pessoas se passando por mim. Estamos investigando a presença de um impostor que se passa por várias pessoas. Conhecido com o Senhor Ninguém.

- Não o conheço, só ouvi falar. Deveria buscar respostas na corporação responsável pelo LD50.

- A mim só cabe desvendar a chacina do Café Miragem. Ainda acredito que você está envolvido nesta chacina junto com a turma de loucos do Ismael. Se não colaborar, jamais encerraremos este caso.

- Quer saber de uma coisa? Você está mais perto das respostas do que qualquer outra pessoa. Olhe ao seu redor e veja quantidade de viciados por todos os cantos. O que aconteceu naquele ritual está para se repetir com outras pessoas, de uma maneira mais inusitada. Se estivermos lúcidos, ainda podemos talvez sair dessa vala.

- Acha que eu sou como você? Um perdido? – Respondo afirmativamente com a cabeça, deixando o detetive mais irritado. – Quer saber como eu me mantenho lúcido? Eu procuro formular uma conta simples matemática na minha cabeça. Se eu me perder durante o raciocínio, é sinal que não estou tão concentrado como deveria. Mas quando eu nem consigo visualizar os números, significa que não estou mentalmente saudável. Pode ser falta de sono, ou até stress do cotidiano. Quando não existe disciplina mental, pode perder totalmente seu propósito e objetivo. Tem muitos estímulos lá fora que nos tiram facilmente a concentração. Manter a mente saudável é tão importante quanto uma alimentação balanceada e exercícios físicos.

- Se está tão lúcido, então tente provar que isto é real. Me convença que não sou fruto da sua mente, nem você da minha.

- Não me faça perder nessas suas viagens na maionese. Vamos retornar do princípio. Agora onde foi que começamos? - O detetive para de me encarar, para tentar encontrar meu dossiê. Quando percebe que já não está com a mesma concentração de antes, volta a falar comigo. - Creio que infelizmente tenho que ignorar o interrogatório e seguir adiante nas investigações.

- Saiba que esse nosso diálogo será importante em sua jornada. – Consigo finalmente derrotar o detetive, colocando-me na posição de mentor. - Agora é hora resgatar o tempo perdido. Não tente se apegar a informações. Procure apenas atacar a fonte de todos esses problemas.

- Não vou mais perder tempo contigo. Vamos nos encontrar novamente. Terá tempo suficiente para tratar seus distúrbios. Espero que sobreviva até o nosso próximo encontro.

- O sanatório irá ruir. Uma rebelião acontecerá em breve.

- Como sabe disto? – O detetive fica surpreso com uma informação inesperada.

- Christian me contou tudo o que preciso saber.

- Quem é Christian?

- O traficante de informações da cidade. É ele que sabe mais sobre o caos envolvendo o LD50.

- Como eu chego até ele?

- Ele vai te procurar quando chegar a hora. (...)

(...) TRANFERÊNCIA DE SINAL: EXPERIÊNCIA SR. NINGUÉM, CAFÉ MIRAGEM, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Sentado sozinho em uma mesa próxima a janela, avisto todo o movimento da estação de transportes. Observo todas as pessoas ao meu redor. Estou dentro do maior ponto de encontro dos pseudos intelectuais, o Café Miragem. Aqui é repleto de pessoas prepotentes e egocêntricas, onde desperdiçam suas vidas vazias e sem significados. Discutem todos os dias futilidades do cotidiano, repetindo o mesmo discurso sempre. Os seres invisíveis são os únicos a darem atenção aos monólogos dos intelectuais. Gosto de isolar-me deste tipo de companhia, preferindo observar as multidões que transitam fora daqui. Sentado perto da janela consigo ter a melhor vista do calçadão. É o meu portal simbólico entre essa vida interna conservadora e o universo caótico. Todos nós funcionamos como peças que compõe uma complicada engrenagem, com cada pessoa servindo a um propósito específico. Cidadãos desempenham diariamente importantes funções dentro da sociedade, onde ninguém é menos importante. Admiro um a um, surpreendendo-me sempre neste cotidiano nada banal. A agitação das ruas quebra a monotonia deste lugar sem graça. Amo os apressados do serviço, os batedores de carteira, catadores de lixo, personalidades políticas e religiosas, sindicalistas, vendedores ambulantes. Adoro os guardas da lei, os alegres boêmios, inclusive os temidos traficantes. Observo com atenção o mendigo, com sucessos e fracassos na conquista de um pão para sobreviver. O sol brilha para todos os que circulam em frente ao Café Miragem. Abençoadas sejam todas as formas de vida ativa no universo...
Noto a presença de um ser sombrio, camuflado em seu, sobretudo e chapéu enorme, tendo as mãos ensanguentadas, como única mostra de chaga do corpo. Caminha de maneira apressada por todos os lados, indo e vindo diante da minha vista. Não faz mais de uma hora que estou observando. Percebo neste curto período temporal, suas rápidas aparições e sumiços, em diversos pontos. Como pode um homem estar em vários lugares, em uma rapidez assombrosa? Em cada vez que o vejo, surge um maior interesse em decifrar aquela anomalia, tirando toda aquela minha admiração pelos demais pedestres. Fico em transe, na expectativa de reencontrá-lo mais uma vez. Percebo mais detalhes ao meu redor. Sinto claustrofobia neste lugar, vejo tudo embaçado aqui dentro. Enquanto lá fora, torna-se sombrio e assustador, piorando sempre quando ressurge o ser misterioso. Resolvo segui-lo, no intuito de descobrir os mistérios que rodeiam os pensamentos deste sujeito...
Ao abrir a porta do café, deparo-me com a multidão que antes observava atentamente. A minha presença continua sem importância no meio de todos eles. Esbarram constantemente em mim, sem pedir perdão, ou sem se importarem com que fizeram. Apenas seguem seus caminhos, ignorando os demais do meio do percurso. Sigo em frente, sempre tentando encontrar aquele homem, no meio de tantas pessoas. Finalmente deparo-me com ele, caminhando no mesmo ritmo apressado. Só que desta vez não ele vai fugir de mim, vou seguindo para onde ele for. Os detalhes nele, antes imperceptíveis, agora aparecem de forma mais nítida. Seu rosto é retalhado por cacos de vidro, pele pálida, com aparência mórbida. Em um dos bolsos do seu enorme, sobretudo, existe um punhal, com o cabo no formato de uma víbora. No outro bolso está uma caixa azul, contendo diversos itens, entre eles uma droga chamada LD50...
No meio do longo percurso, sou levado a diversos lugares que jamais havia visto. Tudo vai ficando mais diferente e estranho, na medida em que avançamos, ou retrocedemos no caminho. Durante todo esse tempo de perseguição, ele sequer notou minha presença, sem se importar com qualquer um de nós. O máximo de contato que ele mantém, é quando esbarra em alguém, ou toca na mão de uma pessoa, entregando-lhe um item (parecendo ser infinito o número de presentes) da caixinha azul. Cada um que recebe seu “presente” entra em uma espécie de transe, ou tem uma profunda alteração comportamental...
As ruas não vão ficando mais estreitas e perigosas, quando adentramos no coração da cidade. O ambiente sombrio e hostil são quebradas por luzes pulsantes em um forte néon, criando uma ilusão exótica destes lugares. Os cemitérios, boates, bares de todos os tipos, fazem parte dos seus diversos pontos de passagem...
Nem mais me lembro por quanto tempo estou perseguindo, sinto-me sua sombra. Seu comportamento continua uma incógnita para mim. Esqueci o que é deslumbramento, nem me importo mais com o novo. Pareço ter vivenciado isto, em algum momento distante. Inclusive as ações cotidianas das demais pessoas tornam-se mais previsíveis. Em cada lugar diferente, uma nova emoção, adrenalina misturada com medo, que me levam adiante nesta jornada...
Paredes, muros e portas são invisíveis para nós dois, não havendo mais barreiras que nos façam parar de vez. Ainda não sei quem ele é tampouco nem sei dizer mais quem eu sou. Somente as ruas e lugares fazem parte da minha identidade. Não somos mais percebidos por pessoas comuns. São poucos os que notam nossa existência. Gritam de vez em quando pelo nome “Trent Wayman”, quando conseguimos precisam dele. Afinal Trent Wayman, é uma pessoa, ou uma assombração? Acredito que seja apenas o principal responsável por levar perdição para muitas vidas...
A corrida para não perdê-lo aumenta constantemente. Entre tantos lugares percorridos, sou levado pela primeira vez ao farol que ilumina a cidade. Uma forte luz passa por mim, cegando-me por alguns minutos. Tempo suficiente de nunca mais ver Trent Wayman em minha vida. Fico estático, um pouco fatigado pela longa viagem, sobrando apenas um pacote contendo uma dose de LD50 na minha mão direita. Só assim retorno ao meu ponto origem, o Café Miragem, o local mais monótono e parado da cidade. Sento-me no mesmo lugar de antes, desta vez observando a forte luz do farol, que faz lembrar os lugares em que estive. Dentro do ambiente preto e branco, em que estou agora, espero minhas energias restabelecerem novamente. Estou estático como os demais. Apenas olho para o chá fervendo, e a dose de LD50 ainda fechada. Resolvo então descobrir o efeito da dose, misturando tudo no meu chá...
No ultimo gole, meu corpo ganha uma nova vida, tendo uma interligação misteriosa com os usuários desta droga. Descubro que sou movido pela vontade do meu pensamento, finalmente desprendendo-me tudo que me aprisiona. Essa nova liberdade já conhecia antes, agora realmente percebo que pertenço às multidões. Eu não sou um, mas todos ao mesmo tempo. Tornei-me a consciência coletiva dos demais. Antes seguia a figura de Trent, para tentar encontrar o que eu não havia descoberto nas pessoas. Acabei encontrando a universalidade, sintetizada em um alucinógeno transcendente. Sou capaz de estar em todos os lugares, sem nenhuma restrição cronológica. Renego minha vida e meu passado, para viver emoções presentes, em qualquer lugar diferente. Agora estarei sempre observando vocês, como um figurante onipresente, representando todos e ninguém ao mesmo tempo...

(...) DESVIO DE SINAL: EXPERIÊNCIA GIULIA, CLUBE ECLIPSE, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Minha mente está no céu, enquanto meu corpo está curtindo todos os prazeres da carne, bem aqui em baixo. Um inferno, eu definiria esta festa de viciados. Christian é o único que me protege, mas ao mesmo tempo me deixa muito mais doida. Às vezes cheiro, pouco fumo e injeto mais que gostaria. Mesmo assim não consigo tirar o forte trauma da memória, muito menos atingir o gozo supremo. Ele me beija, me come, vive me drogando, só para continuarmos juntos.
Neste lugar pequeno e claustrofóbico, divido minha loucura com os demais seres anormais. Eu rodo, pulo e caio na pista de dança. Acho que é único lugar para quem não possui tristeza e infelicidade. Parece que só tem gente alegre que finge estar bem com a vida. O clube Eclipse é o lugar mais agitado e menos assustador desta cidade.
Todos que se perderam, buscam um atalho em meio à escuridão, tentando encontrar a luz da libertação. Infelizmente essa luz divina, só tem cegado esses alucinados, mantendo-os em uma prisão mais tortuosa. Eu busquei a maldita iluminação no LD50. Percebo que ainda estou procurando a lanterna dos afogados, como diz a música. Pensava que Christian pudesse me salvar, mas ele insiste em me afogar nesta loucura. Apesar de tudo ainda o amo. Ele tem um tipo de amor doentio, fazendo sentir-me sua escrava sexual, por suas taras sado masoquista. Só de pensar, sinto uma enorme vontade de vomitar sangue, como da ultima vez. Aquela horrível lembrança foge da mente, para dar lugar ao êxtase da curtição do momento.
Christian resolve me levar na cobertura da boate, junto de mais alguns chegados (não muito íntimos), para vermos toda cidade iluminada pela luz do farol. Ele nos propõe uma viagem psicodélica neste lugar, dando-nos um novo tipo alucinógeno. Fico puta, quando ele resolve nos usar como uma de suas cobaias. O efeito da droga nos proporciona um estágio de letargia avançada, buscando revelar os nossos sonhos mais escondidos no fundo do inconsciente. Vagamente o sonho desvendado pela droga torna-se muito angustiante. Chega causar calafrios aos demais, que estavam conosco ao ar livre. Éramos assistidos por um homem, sentado na ponta de um arranha-céu, parecendo um arcanjo enviado para ser espectador desta enorme alucinação. Ele continua observando, esse imenso ato de autodestruição, enquanto cada um de nós (apesar de cada um estar imerso em seus sonhos mais íntimos) se reveza na posição central do círculo, para receberem impacto emocional das sensações compartilhadas. Recebíamos das mais variadas formas de reação emocional. Muitas vezes vinham em sentimentos de culpa, ou de sofrimentos expressados pela dor mais concreta possível. Sangrávamos, sofríamos enormes espasmos, vindos seguidamente de muito vômito e muita enxaqueca. E chega minha vez em assumir meu lugar no circulo. Uma força misteriosa cai sobre mim, na velocidade de um raio. Descrevo-o como uma penumbra azul imensa, provocando um calafrio instantâneo. Uma vez completada meu lento e programado “ímpeto onírico”, levanto novamente, saltando para alto e muito longe, flutuando levemente sobre os demais companheiros. Quando recomeço descer rapidamente, não consigo encostar-me ao chão. Os especuladores nada dizem, apenas continuam essa troca de experiências. Depois veio um tumulto de proporções imaginárias tão estranhas, que poderia se qualificar como uma morte lenta da alma...
Sentíamos o caos abaixo de nós, causada pela brutalidade de policiais invadindo nosso ultimo exílio. Estamos salvos aqui em cima, mas faria de tudo para descer e sair dessa. O povo tinha se revoltado contra os invasores, como consequência restaram-lhe tiros que perfuram os seus corpos. Os sobreviventes estavam deitados, com medo de serem atingidos. Já estava prevendo isso, quando flutuei por todos eles, sentindo a figura de Frank vindo atrás de todos nós. Christian estava perplexo, observando a maneira em que estava estremecida. Minha mão tremia sem parar, olhos ainda bastante dilatados, mesmo assim conseguia ver os corpos dos demais companheiros do circulo completamente congelados pelo frio idealizado por nós. Estava em outra dimensão, onde tinha a visão de rosas abrochando e desabrochando rapidamente. Os olhos de Christian lacrimejam como nunca vi. Escuto sua voz em minha mente: “Tentei tirar sua pior lembrança de seu pensamento. Mas o que nós fizemos, não tem mais volta. Me perdoa por esse fracasso? Ainda te amo”. Continuo sem entender o que ele queria dizer. Os policiais começam subir as escadas. Senti naquele momento o pior medo de toda minha vida. O suor percorre todo o meu corpo. Tenho uma forte contração no útero, dilatando instantaneamente minha vagina, escapando muito sangue e outras coisas que nem identifiquei naquele estado. Parecia uma bomba que estourava dentro de mim. Naquele pior momento de dor, Christian se liberta do transe. Eu berro, liberando toda energia ruim acumulada. Volto ao meu trauma antigo. Revejo um feto todo deformado e cheio de bolhas, enroscado no enorme cordão umbilical. Estava praticamente perdendo aos poucos minha vida, enquanto Christian tentava manter-me viva. Ele retirou o cordão umbilical preso à vagina e usou a sua camisa para tampar o forte sangramento. Volto ao presente, com Christian novamente ao meu lado. Procura acariciar-me bastante, mostrando todo o cuidado que antes não demonstrara. Sussurra em meu ouvido, dizendo palavras esperançosas, conseguindo finalmente me acalmar. Olho para o alto e vejo o homem parado no arranha-céu. Sinto-me viva e afastada da morte. Continuo nos braços de Christian, ele ainda chorando, com o seu fracasso e na vulnerabilidade em que ficamos. Mesmo ele se sentindo culpado por toda essa situação, me entrego a sua vontade. Ele ainda consegue me passar uma sensação de paz e esperança, que me salvam desta tormenta...
Fecho os olhos e vejo uma luz azul, com Christian me esperando para revelar um segredo. Mergulho fundo na luz, em um local escondido chamado “Azul Profundo”. Sabia que havia sido feliz de verdade, tinha lucidez e inteligência para realizar meus sonhos. A morte trágica da minha filha levou-me a esta situação. O trauma fez com que confiasse em Christian e nos demais traficantes. Pelo menos apaguei da memória os detalhes horrendos, não voltando a me torturar mais. Apenas ficou na lembrança algo perdido, sendo Christian a única pessoa que pode me salvar...
Abro os olhos, vendo os policiais invadindo o local, disparando balas sem parar. Isto não impede de Christian me carregar em seus ombros, abrindo uma porta para saída de emergência. Quando os tiros são disparados em nossa direção, já estávamos descendo a escadaria sem degraus. Logo penso: “isso só pode ser mais uma alucinação”. Na velocidade da descida, perco minha consciência, esquecendo um pouco da dor. Apenas com a vontade de adentrar novamente no vasto “Azul Profundo”.

(...) NOVO TIPO DE SINAL ENCONTRADO: EXPERIÊNCIA DOUGLAS, CASA, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Levanto-me desesperadamente daquele pesadelo, com o mesmo medo vivido durante o sonho. Toda a minha cama está encharcada de suor. Tento manter-me firme no chão. Toda imagem, que estou enxergando no momento é distorcida. Fecho meus olhos. Tenho recordações do carro capotando em meu sonho, onde tive o temor de morrer naquele momento. Não me recordo do que fiz ontem. O sonho foi mais intenso do que qualquer experiência vivida durante a vigília. O relógio mostra o quanto estou atrasado. Hoje não é um bom dia para sair de casa, mas não tenho mais alternativas. Já inventara diversas justificativas para faltar no trabalho. Pressinto que algo de ruim está para acontecer. Sinto-me destinado a viver uma tragédia, porém tento ignorar meu negativismo. Lembro-me do livro “Manual para Sobreviver ao Apocalipse”, que ajudou a mudar minha percepção sobre a realidade. Havia um capítulo que ensinava como sair de uma alucinação: “Teste sempre o limite do que pode ser real, ou imaginário”. Olho para o relógio novamente e vejo as horas. Os números continuam no mesmo lugar. Tento acender e apagar as luzes. Tudo volta a funcionar novamente. Acho que não estou alucinado. Estou mesmo é fora de orbita. Preciso colocar minha vida “nos trilhos” novamente.

A única via de acesso que eu utilizo para trabalhar está altamente congestionada. O ritmo frenético desta cidade me enlouquece a cada dia. Estou prestes a explodir no meio de tantos carros parados. Nunca me atrasei para o serviço e gosto de chegar adiantado para evitar este tipo de situação. Sinto ter vivido tudo isso, em algum momento em minha vida. Estou voltando a refletir minhas ações. Há muito tempo não parava pra pensar sobre nada. Percebo que preciso relaxar um pouco. Apenas fecho meus olhos por um instante e sou transportado para a mesa do meu serviço. Não me assusto com a situação um tanto surreal. Sei que não me teletransportei. Só estou meio desligado.

Não consigo mais trabalhar. Apenas continuo olhando para a imensa pilha de papéis. As pessoas ao meu redor movem rapidamente, como um filme em fast foward. O tempo deixa de ser tão acelerado, quando finalmente meu chefe percebe que ainda não comecei a trabalhar. Ele fala algo que não consigo entender. Simplesmente respondo que estou me sentindo muito mal. Ele acaba rindo de mim e fala algo incompreensível. Tudo volta acontecer em um ritmo cada vez mais frenético e nauseante. Não consigo mais enxergar direito. Só vejo borrões de imagens percorrendo todo este espaço, em uma velocidade que meus olhos não conseguem mais acompanhar. Vou ao banheiro e sinto o chão balançar, como se fosse um navio em alto mar. Finalmente acho à privada e consigo parar o tempo depois de vomitar. Lavo meu rosto, quando olho no espelho várias camadas de imagens, todas mostrando muitas situações bizarras e incompreensíveis. No momento em que toco o espelho, sinto um líquido gelatinoso, ocupar o espaço daquele vidro sólido. Uma fenda abre no espelho e toda energia de dentro começa modificar a realidade presente, como se eu entrasse em contato com uma dimensão superior. Aos poucos sinto a ausência de gravidade e o meu corpo funde com a imagem projetada no espelho. Com a união de corpo físico e projetado, vou levitando devagar, ficando com as mãos e os pés soltos no ar. Nada poderia impedir-me de curtir aquela viagem astral. Aquele banheiro público se transforma em um espaço único, separado de todas as influências externas. Já havia escutado muitas teorias sobre a hiper-dimenção, mas para mim não havia definição para este momento. Somente uma força maior poderia tirar-me daquele estado. Consigo saltar levemente de uma parede a outra, caindo no chão elástico, para depois esboçar alguns passos no teto. Vejo a luz do teto ganhar tons azulados, enquanto o som do mar preenche todo o espaço e o piso imundo vira um imenso tanque de mergulho. Vou em direção da água, mergulhando em um calmo vazio, afundando naquele azul profundo. Aos poucos vou percebendo a realidade da situação. Recupero minha lucidez, saindo finalmente desse transe. Sinto que não sou mais o mesmo depois desta experiência. Percebo as privadas e pias transbordando água sem parar, inundando o banheiro cada vez mais. Faxineira e zeladores abrem a porta do banheiro inundado, liberando a forte quantidade de água, que agora transborda por toda a repartição. Eu estou ainda caído no chão, curtindo um pouco do que restava daquela loucura. Os serventes tentam me reanimar com leves tapas em meu rosto. Volto aos poucos para aquela ordinária realidade. Ou será que estou em mais uma representação do que pode ser real?


Um pouco mais tarde, os encanadores, policiais e muita gente estranha começaram investigar o ocorrido. Meu chefe e um detetive metódico tentam arrancar alguma resposta de mim. Estou ainda confuso demais para responder. Infelizmente ainda não voltei cem por cento, continuo com a mesma enxaqueca da manhã. Eu só quero voltar para casa. Finjo que está tudo bem e que consigo continuar trabalhando até fim do dia. Aos poucos o ambiente vai ficando vazio, sendo eu um dos últimos ainda no recinto. Já anoiteceu e finalmente acaba mais um horrível dia de trabalho. Já não é a primeira vez que passo mal no serviço. Sinto que a qualquer momento eu possa explodir no meio de todo mundo.

Pego o carro e consigo dirigir em alta velocidade. Ao chegar perto do túnel, toda a tontura retorna. Sinto pânico e claustrofobia, ao perceber que não há nenhuma iluminação dentro do túnel. Desvio de vários veículos mal iluminados, quase provocando um acidente. Aquela escuridão parece não ter mais fim. Sinto que estou dentro de uma nuvem de fumaça preta. Fico eufórico com respiração ofegante. Só volto ao normal quando saio da escuridão. Uma luz alta vem em minha direção. Não consigo enxergar direito. Quando me dou conta da situação, percebo que estou prestes a bater em um enorme caminhão. Gostaria voltar ao início do dia, quando ainda podia ficar em casa com segurança. O tempo fica mais lento, quando finalmente meu carro colide com o caminhão. Minha percepção fica mais aguçada. Vejo que na calçada ao lado tem um mendigo com uma placa ilegível. Ele ri como se fosse o único a entender a tudo que está acontecendo. Para mim só resta sentir os destroços da lataria prensando todo meu corpo, enquanto estilhaços de vidro retalham minha face. A sensação de dejá-vù parece martelar o tempo todo em minha mente. O carro capota várias vezes, tempo suficiente para tentar voltar ao mundo surreal que tinha vivenciado. Posso novamente moldar uma nova realidade.

Com um movimento rápido dos olhos, desperto daquele pesadelo. Sinto minha cama fedendo a suor e urina. Tive o sonho mais lúcido da minha vida. Tento lembrar de novo o que tinha feito anteriormente para passar tão mal. Continuo com a mesma enxaqueca do sonho. Meu dia não passou de uma ilusão. Não sei o que aconteceu comigo ontem. Tudo parece estar de volta no seu devido lugar. Ligo a televisão e vejo as mesmas notícias que sonhei. Olho para o calendário e fico em estado de choque. Tenho quase certeza que ainda estou preso no mesmo dia do sonho. Talvez eu não tenha sonhado afinal...

quinta-feira, 8 de março de 2007

CAPÍTULO 2: ATALHO PARA A ESCURIDÃO

CAPÍTULO 2: ATALHO PARA A ESCURIDÃO

(...) SINAL ENCONTRADO: EXPERIÊNCIA HERMANO, ESTRADA PRINCIPAL, VISUALIZAÇÃO EXTERNA: “Não entendo porque diabos, ninguém sinaliza. Tenho que parar de encher a cara e tomar mais café. To realmente precisando de uma boa noite de sono. Com todo esse borrão, é quase certo que eu caia do volante”. Hermano Jonas está furioso por não conseguir sair de um enorme congestionamento. A forte chuva dificulta sua visibilidade, sendo atrapalhado pelo vidro embaçado. Talvez se retirasse o carro da rodovia, cortando o caminho pelo acostamento, Hermano não desmaiaria no volante. Por sorte as buzinas dos carros de traz o acordam, fazendo com que continue dirigindo. “Parece que estou indo a lugar algum. O desgraçado do Christian foi logo escolher este fim de mundo para negociar. Este bairro é o pior dos labirintos”. Hermano vai se localizando pelos néons de bares e casas noturnas já freqüentadas por ele. Sempre quando chove, ou tem uma tempestade, acontecem tragédias fazendo um enorme estrago no cenário da cidade, motivo pelo qual foi formado tal engarrafamento. Durante o longo tempo de procura, Hermano se distrai com a freqüência do rádio, perdendo o foco na direção. As alucinações, que há muito tempo não se manifestava, voltam como um louco pesadelo. A estrada e tudo ao redor tornam-se uma escuridão quase que total. Mesmo os faróis do carro ligado e os néons ao lado, não servem para enxergar a estrada, os carros, ruas e prédios. Raios começam cair pela estrada, fazendo o carro correr em ziguezague. O forte vento que sopra contra o veículo, tem as vozes parecidas de fantasmas gritando por socorro. Fecha os olhos para sumir a alucinação. Neste breve momento se concentra na música do rádio. Voltam às lembranças de um passado lúcido. Volta à mente uma imagem de um jovem idealista, que foi se desgastando com o tempo. Repensa sobre sua vida e trajetória: “Aonde é que eu fui parar?”. No momento em que muda seu pensamento, o radio sai de sintonia, causando um som estridente ao ponto de estourar os tímpanos. Coloca as mãos nos ouvidos na tentativa de abafar o som, deixando livre o volante do carro. O veículo perde o controle e bate no muro de um beco, fazendo-o despertar do transe. Não sabe por quanto tempo o carro andou normalmente, muito menos faz idéia em que rua entrou. Apenas sabe que essa batida o conteve de entrar no mundo de alucinações.
Ao sair do veículo estraçalhado, tenta recuperar os sentidos. Sua audição continua afetada devido aos fortes ruídos do rádio. Procura saber onde está. Quando olha a placa no poste ao lado, escrito “Rua Matéria”, descobre que chegou aonde queria. “É exatamente como Christian falou, rua estreita e curta, fazendo bifurcação com oito ruas paralelas. Agora tenho que achar o bar, onde ele deve estar me esperando há tempo”. Hermano tenta andar, mas mal consegue ficar firme no chão, cambaleando para os dois lados. Vindo do meio da escuridão, surge um ser oferecendo ajuda. “Você está bem? Há maneiras mais fáceis de chegar a esse lugar. Não precisava vir desse jeito. Deixa eu te ajudar chegar onde pretende”. Desnorteado tenta identificar a pessoa que o ajuda. “O que aconteceu comigo agora pouco?”. “O que aconteceu com você, é bem normal para quem está neste estado”, diz o estranho. Para Hermano, essa pessoa provavelmente deve ser Christian. “Você recebeu mais uma pista falsa. Eu não sou a pessoa que tem as respostas que tanto procuro. Apenas Ismael explicará o que te interessa. Eu apenas serei o caminho para chegar até ele”. Os dois se dirigem ao bar, onde serão passadas todas as informações necessárias...

(...) TRANSFERÊNCIA DE SINAL: EXPERIÊNCIA FRANK, DELEGACIA, VISUALIZAÇÃO EXTERNA: – Frank, você é o único cara limpo para entrar nos narcóticos. Todo mundo aqui já caiu em tentação nessa putaria de sistema. Não confio em ninguém, muito menos em mim mesmo. Sabe que é foda pra eu chefiar isso, quando to na mesma merda que todos esses viciados. - Cheira mais uma “carreirinha” de cocaína. - Não to podendo fazer nada. Além disso, tu é o cara que impõe respeito à base da porrada. Só desse jeito é que vamos deixar de ser pau mandado daqueles filhos da puta.
- É só isso que tem pra me falar? Sabe que essa merda dos narcóticos não vai me levar a lugar algum. Eu estou bem no setor de homicídios. Não quero mais sarna pra me coçar.
- Eu sei que tá mandando bem com isso. Inclusive vai ser foda arrumar um substituto. Mas a situação ficou tão preta, que tá acontecendo um monte de mortes bizarras. E tudo por causa dessas novas drogas que tão surgindo. Não temos mais moral pra impedir os traficantes. Todo mundo agora tá com o rabo preso.
- Você quer apenas um cara que tenha coragem pra tentar foder eles. Além de suicídio, é também uma puta perda de tempo. Só vou entrar nessa, pra resolver o caso do massacre no Café Miragem. Quero saber quem é o filho da puta por trás disso. Resolvo o caso e volto pros homicídios.
- Tá vendo. Não vai ser tão ruim assim.
- É um puta de um vespeiro que eu vou ter que mexer. Mas não pense que por trabalhar aqui vou livrar a cara de vocês.
- Sabe que o buraco é bem mais embaixo. Pega leve no início, senão todo mundo se fode, principalmente você. O teu trabalho por enquanto é apenas evitar que essa merda se espalhe mais ainda. É só tirar uns traficantes de circulação e dar um sustinho nesses viciados de rua.
- E quando começo?
- Tem que ser agora mesmo. Não dá pra adiar mais. Seguinte... Vai pro centro, que daqui a pouco começar uma festa rave. Lá é que são distribuídas as melhores drogas da cidade. Vá e apreenda todo o bagulho que conseguir.
- Não tem noção da merda que vai dar? Tô sem equipe preparada pra isso. Inclusive não quero ninguém ferido nessa primeira operação. Preciso é de todo um esquema tático pra assegurar toda essa situação.
- Não esquenta com isso. Lá só tem peixe pequeno. É só uma festa de playboy. E essa gente se caga toda quando aparece alguém armado. Quanto a sua equipe, é só aguardar que em breve será montada. Mandamos trazer da capital, uma das melhores especialistas sobre narcóticos. Ela já teve na federal e é bem gostosa por sinal. Da pra dar uma "carcada" legal.
- Porra! Todo mundo morrendo e você com putaria. Fica focado que eu não vou nessa porra sem ter no mínimo umas cinco viaturas. Se for pra meter moral, vamos fazer isso direito.
- Cara só duas pra ti. Não da pra botar quase todo mundo assim de cara. Já te falei que a maioria aqui tem rabo preso.
- Aqui só tem corrupto e viciado mesmo. Devia vomitar de tanto nojo.
Frank toma rumo ao centro da cidade. Anoitece e as ruas começam a ficar vazias. A sensação de segurança vai sumindo para os cidadãos que ainda não chegaram em casa. Aos poucos os personagens macabros começam a dominar as ruas, cada um disputando por um espaço onde exista um pouco de iluminação. As viaturas param em frente a um terreno baldio com tendas iluminadas por luzes neon. O ambiente da festa não aparenta ser hostil, principalmente quando os viciados ficam fora de órbita após algumas doses de ácido. Repentinamente Frank tem uma sensação de ter vivenciado este momento. Mesmo sem usar nenhum tipo de droga Frank sente que está em um estado de transe, como se estivesse tendo uma alucinação compartilhada. Porém um detalhe que não foi percebido por Frank. Tudo se transforma naquele lugar. Objetos começam a se distorcer, enquanto as pessoas andam pelo enorme chão quadriculado, como estivessem pisando na lua. O detetive começa a delirar e sentir-se em um pesadelo de onde não consegue mais sair. Sua escolta parece ter sumido na névoa colorida. Fecha os olhos com força e esfrega as mãos, na tentativa de acordar dessa loucura. Quando abre os olhos, percebe que está em volta de um monte de cadáveres. O desespero toma conta de Frank. Sem ter nenhuma reação motora, procura racionalizar sobre o que está acontecendo. Não consegue uma resposta plausível para sua alucinação, quando sabe que ele é o único a não ingerir qualquer tipo de bebida ou droga. Fecha os olhos novamente e sente-se desprender do seu corpo, como pudesse enxergar si mesmo a distancia. Quando se vê fora do corpo, percebe que está agindo com extrema violência contra os jovens da festa. Não só bate em todos que cruzarem o seu caminho, como também espanca os que tentam revidar. Sem acreditar no que está acontecendo, tenta voltar para o corpo. No entanto existe uma força maior que ele impedindo seu retorno. É como se um demônio ou alguma entidade maléfica controlasse seu corpo. Uma cólera de fúria cegou sua razão e aos poucos vai perdendo a força até desmaiar...

(...) DESVIO DE SINAL: EXPERIÊNCIA DOUGLAS, CAFÉ MIRAGEM, VISUALIZAÇÃO EXTERNA: Douglas não sabe que é observado. Apenas segue em frente, indo de encontro com Christian, que pediu para esperar na mesa 07 do Café Miragem. Senta-se lentamente, olhando por todos os cantos procurando Christian. Sem querer se distrai com o movimento das moscas voando constantemente ao redor da lâmpada. Compara sua vida com aquelas moscas, sentindo com um pouco mais de sorte em poder conseguir fugir um pouco do padrão. Christian sai de uma porta que parece ser um banheiro, entretanto a luz vermelha de dentro indica ser outro ambiente. Senta-se na mesa e cumprimenta Douglas.
- Cansado da repetição? - Pergunta Christian sendo bastante sarcástico - Descobriu então que tudo isso é bastante previsível. São apenas poucos os que exercem o livre arbítrio.
- Mas porque nada muda e os dias são sempre iguais para mim? - Douglas ansioso pelas respostas, que há tanto tempo vem tentado descobrir.
- É cedo demais para você descobrir. Está pagando por sua imprudência, por tomar sempre o atalho para o caminho errado.
- Não tenho como evitar. Sou forçado por uma vontade maior. Faz com que eu acabe pegando o caminho que sempre me leva ao mesmo lugar.
- A vida pode ser mesmo um eterno deja-vú. - Suspira na maior tranqüilidade - Saiba que é uma raridade me encontrarem. Então faça maior proveito deste privilégio.
- Eu tinha uma vida normal antes destes dias que se repetem. Não havia esta estagnação em minha vida. Tudo acontecia de maneira diferente. Agora fui condenado ficar preso no pior dia da minha vida. Se eu não fizer nada de diferente, o resto do dia será tudo igual.
- Você é apenas apegado a lembranças desagradáveis, tem um sério trauma e não faz nada a respeito. Eu só posso lhe indicar um lugar especial, onde não há linha cronológica a ser seguida. É um espaço atemporal. Sei que negaste esse desconhecido diversas vezes, mas lá é o seu único refúgio.
- Eu tenho medo do que está para acontecer, ou repetir novamente. Sei que haverá uma discussão neste café, inclusive o dono deste lugar, se irritará com as pessoas da mesa dos intelectuais, matando-os por pura insanidade.
- Isto é apenas um ponto de vista isolado, tente ver tudo isso numa só conexão. Essa cidade vive do narcotráfico, não há como lutar contra isso. Como tudo é aqui é um caso perdido, sobrevivemos graças aos viciados desta cidade, que por sua vez não duram muito tempo, sendo substituídos por outros viciados. E assim o ciclo continua.
- Por isso tenho medo de perder um pouco do que resta da minha lucidez no meio de tanta gente louca. Sinto isso neste momento. E cada vez que volto a este lugar, fico mais preso a essas sensações. E tudo que eu fizer não vai mudar em nada as regras do jogo. Sei que Ismael está lá fora, segurando na memória todos os meus atos. Tenho medo do que ele está planejando agora, Não confio nele e nunca confiarei. Posso ter um pouco de sorte em conseguir mudar meu rumo pelo menos uma vez. Mas acho que nada vai mudar e talvez tenha que me acostumar com isso. Por tanto estou cada vez mais descrente em relação ao livre arbítrio.
- Está enganado quanto a isso, ele te deu liberdade de escolha, você sempre a descartou. Darei a você a chave para o quarto vermelho, são poucos que tem esse acesso neste café.
- Gostaria voltar a sentir o que é liberdade. Ismael tomou-a de mim, agora quero de volta.
- Ismael não volta atrás, tenha certeza disso rapaz. Inclusive eu estou pagando pelos meus erros. Não há mais volta para ninguém.
Douglas se aproxima da porta do quarto vermelho, coloca a chave na fechadura e lentamente entra no local. Uma forte luz avermelhada quase o cega, mas aos poucos vai se acostumando com a iluminação do ambiente. Avista várias camas, todas encostadas em fileiras, nas duas paredes. O corredor da impressão de ser interminável. Quanto mais percorre esse caminho, sente-se preso a um lugar parecido com um hospital, com uma enorme ala de pacientes em coma. Em cada cama está um paciente sendo observado por três vultos vermelhos, observando as reações neurológicas de cada paciente, através de uma maquina estranha. Cada máquina mostra um mapa do cérebro de cada um, seguido de um gráfico complexo. Os vultos movem com se multiplicassem em várias partes do espaço, apenas voltam a serem únicos, quando o deslocamento é terminado. Mais adiante temos outros pacientes recebendo outro tipo de tratamento, alguns recebem diversos tipos de drogas, para explorarem os diversos tipos de reações químicas no cérebro. Inclusive existem pequenos buracos embaixo da cama, para deixar cair toda a toxina acumulada pelo corpo. Gradativamente Douglas começa perceber que todos os pacientes não são meros enfermos e sim várias cobaias em observação. Assustado volta correndo pelo longo corredor, que desta vez não possui mais fim. Tenta chegar mais perto do espaço vazio onde há total escuridão. Escuta ecos de vozes de pensamentos perdidos no espaço, vagando rumo ao nada. Uma força o puxa para aquela escuridão, que parece um portal místico, levando para uma nova dimensão ainda não vivenciada. Começa esquecer um pouco sua ansiedade, começando a reformular sua personalidade, transformando a mente em energia, que será refletida em um mundo material. Essa energia vai se dissipando e sendo absorvida na mente de outras pessoas. Com medo de desaparecer no vácuo, tenta encontrar em meio a tantos ecos mentais, um pensamento seu perdido. Com o pensamento achado, começa entrar em sintonia com sua mente presa no mundo físico, voltando novamente para o seu velho corpo. Enquanto a fusão é feita, o espaço começa a ganhar formas geométricas, um tanto inconsistentes e esfumaçadas no início. As cores vão aparecendo dentro das formas que se tornam líquidas. O corpo volta a normalizar enquanto se materializa naquele cenário e tudo vai entrando de volta na percepção de sua velha vida rotineira.

(...) NOVO TIPO DE SINAL: EXPERIÊNCIA ISMAEL, LOCALIZADO NA MENTE DA EXPERIÊNCIA GIULIA, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Adoro sentar-me em uma praça, para iniciar minha meditação diária. Dizem que o hábito faz o monge. Prefiro acreditar que o hábito aliena o monge. São verdades que deveriam assombrar minha mente, porém tudo isso não faz a menor diferença para mim. Trabalho para um ser oculto e só obedeço aos seus comandos no meu cérebro. Então você pergunta para mim se eu o conheço? Talvez mais que deveria. Por favor, não se levante. Fique relaxada como sempre. Somente assim os efeitos do LD50 serão transcendentais. Não faça nada por enquanto, simplesmente imagine parando o mundo por um instante.
Eu sei que você é uma garota indefesa e assustada. Leio claramente sua mente. Tem medo de atravessar a floresta escura e encontrar seus próprios demônios. Vou lhe ajudar nessa sua jornada pessoal, mas não irei interferir em seu livre arbítrio. Apenas nos comunicaremos por telepatia. Em breve irá desenvolver esses dons, na medida em que vai superando seus medos e traumas. Enfrente-os e conseguirá se livrar gradativamente de todo o mal. Você está no caminho certo da interligação coletiva. É só acompanhar o meu pensamento, sem precisar entender o que realmente está passando com você. Para saber não precisa compreender, mas apenas sentir e vivenciar esses ensinamentos. Pois será com a sabedoria que usa os seus sentimentos, que abrirá o portal para escapar desta realidade bizarra. Por enquanto não se preocupe com nada apenas e continue concentrando-se na minha voz.
Entendo que continua negar minha existência. Porém não sou uma alucinação, ou uma voz em sua mente. Eu existo e sou o seu amigo Ismael. O mendigo de sonhos e pesadelos. Não apenas um amigo imaginário como tantos outros, mas alguém especial que ajudará encontrar sua companhia nessa travessia pelo inferno. Quanto mais você se entregar, irá despertar novas fronteiras de sua consciência. Poderá conseguir entrar em sintonia com as diferentes freqüências de pensamento existentes do nosso narco espaço. Para isso você precisa de um guia, alguém que saiba as potencialidades desta droga, mesmo que seja uma pessoa tão desprezível como eu. O desconhecido lhe parece estranho e pavoroso, porém você já vivenciou isso e vivenciará várias vezes até se desprender dessa ilusão. Por isso irei te ajudar a controlar seu medo. Pois se não possuir serenidade, o LD50 controlará você.
Vá ao cinema municipal hoje, assista ao filme, preste atenção nas ações dos personagens, nas várias interpretações narrativas que lhe darão uma nova perspectiva da realidade. Lembre-se que não importa o sentido da narrativa, mas sim o sentimento de transcendência. Pois somente com a transcendência, tudo passa a ser desconstruído e reinterpretado como uma nova percepção da realidade. Mas não se perca com devaneios, ou distrações, pois assim você irá ficar presa nas armadilhas de sua mente. Aos poucos conseguirá desconstruir as imagens na tela, o som será desconexo, não restando nada além das palavras. Mesmo eu sendo cego, uso a força do pensamento, como uma chama na escuridão. Como não há nada que eu possa ver, as palavras vêm me localizar em um novo espaço montado na minha imaginação.
Depois da sessão encontre-me na saída de emergência. Entregarei novas pastilhas alucinógenas, contendo diferentes estágios de letargia em cada uma. Poderá sonhar acordada com o que quiser. Eu sei que sua vida parece um sonho maluco, mas com as pastilhas poderá controlar esse seu sonhar. E se puder leia o livro, “Manual para sobreviver ao apocalipse, ou como não enlouquecer com a realidade”. É um ótimo guia para entender nossa situação atual, inclusive ajuda a sobreviver a todos os colapsos que acontecem conosco. Sei que é difícil de ler qualquer coisa, quando está fora de si. Tente apenas olhar para o livro encarando-o. As palavras aparecerão como uma revelação divina e uma voz como a minha servirá de ajuda. Pois saiba que estamos no caminho de sair da escuridão, temos que nos prepararmos para não ficarmos cegos pela luz e não cair em mais um buraco novamente. Confie no que digo, não terás nada do que teme, apenas o que desejares. Por esta grande ajuda apenas te peço suas lembranças emotivas mais lúcidas (boas ou ruins), para que possamos desfrutar de toda a fantasia na sua nova vida. Esqueça todos os riscos, pois não há perigo no nosso novo mundo. Tenho todas as chaves para qualquer lugar surreal da cidade. Apenas tem que se encontrar com Christian, ele te mostrará todos os caminhos e pessoas interessantes para total descontração espiritual.
Ótimo, sabia que aceitaria essa proposta. Vamos nos encontrar quando houver a escuridão total deste dia. E mais uma dica: procure não olhar para baixo, seu medo irá continuar. Tente olhar mais para céu, onde existe alguém controlando tudo, fazendo desfazendo tudo o que consideramos por real. Somente de acordo com a verdade superior e inalcançável em todas as dimensões da existência universal.

CAPÍTULO 1: PERDIÇÃO

CAPÍTULO 1: PERDIÇÃO
(...) SINAL DE ENTRADA, EXPERIÊNCIA DOUGLAS, SECRETÁRIA REGIONAL DE INFORMAÇÕES, COM VISUALIZAÇÃO EXTERNA: Sentado na cadeira, preso em um cubículo dentro da corporação em que trabalha, o jovem rapaz procura uma aspirina para aliviar a forte dor de cabeça. Revira as gavetas da escrivaninha e nada encontra. Vai ao banheiro molhar o rosto para amenizar um pouco a dor. Ao sair do banheiro, encontra sua subgerente, que lhe da uma bronca: “Todo dia você arruma um jeito de dar uma escapadinha no banheiro. Eu pedi os relatórios pra ontem e não to vendo nada pronto”. Ele responde ofegante, transpirando mais que o comum: “Já entreguei faz tempo essa merda e você continua me cobrando. Por favor, vê se não me enche mais o saco. Ta vendo que eu não estou me sentindo bem. Preciso estar morrendo pra prestarem atenção em mim? Aliás, tenho que sair mais cedo hoje. Preciso ver um médico pra mim”. A subgerente ri em tom de deboche: “Se quiser sair mais cedo não chegue atrasado. Eu quero os relatórios na minha mesa o mais rápido possível. Ah... E se está doente o problema é seu”. Douglas começa se irritar, aumentando sua dor de cabeça. Tenta respirar profundamente para não perder o controle.
Há tempos que Douglas não suporta mais o seu emprego. Ultimamente vem enfrentando problemas de saúde devido ao alto estresse de sua árdua jornada de trabalho. Toda noite acaba tendo pesadelos muito parecidos. Sempre relacionado com um acidente de carro. Não sabe ainda o quanto deve agüentar. Sua sensação é de alguém pagando por seus pecados em um purgatório parecido com o inferno.
Como Douglas conseguirá escapar dessa horrível "prisão"? “Precisa haver uma maneira de mudar tudo isso. Mas como será possível? Talvez se eu deixasse de existir”, pensa ele.
Todos parecem trabalhar em silêncio por ali, se existe diálogo, é apenas para comunicar o colega mais próximo sobre suas atividades. Entretanto um dos comentários que vem se tornando freqüentes entre os funcionários, é em relação às panes nos computadores da corporação. Muitos acreditam que seja devido às descargas elétricas, causando danos por todo sistema operacional. Por fim atrapalha bastante o serviço de Douglas, obrigando-o fazer um relatório semanal sobre os danos sofridos. Sempre que os colegas chegam para falar com Douglas, estão cobrando algum serviço, ou acabam reclamando dos seus relatórios. Tudo o que Douglas quer, é não ouvir a voz dos seus colegas e conseguir trabalhar em paz.
Ainda irritado com os comentários de sua subgerente, chega um colega ao seu lado e sussurra em seu ouvido: “Douglas. O chefe mandou avisar, que se você não entregar a revisão do relatório até o fim do dia, vai ser rebaixado ao cargo de arquivista”. Após ouvir tal sentença, Douglas acaba perdendo a paciência. Começa a empurrar seus colegas mais próximos, jogando longe pastas de arquivo e objetos próximos a ele. Nada consegue mais acalmá-lo. Seu rosto fica muito vermelho, chegando ao ponto de fumegar. Sente que não possui mais controle da razão, pois acabara de despertar seus demônios internos. Seu corpo vai inchando feito um balão vermelho, até finalmente estourar. Enfim Douglas explode feito uma bomba armada. O que sobra dele são apenas restos de seu corpo espalhado por todo o andar.
Se pensam que isto é o fim da história, não é mesmo. Tão pouco para Douglas, que acaba de deixar aquela realidade opressora. Sua consciência continua existindo em um lugar diferente, onde está transportando todos os seus pensamentos. “Tudo está mudando rapidamente. O que é que está acontecendo? Não sinto mais dor. O sangue continua saindo do meu corpo. Estou sentindo uma leveza. Acho que estou flutuando. Devo parar ou continuar? Quero parar! Sim, tudo está paralisado. Sinto pela primeira vez a possibilidade de ter o controle de tudo”.
Em um flash Douglas aparece em vários lugares surreais, em um curto período temporal. Havia quebrado a barreira do espaço e do tempo em poucos segundos. A primeira pessoa com quem se depara é um homem negro, alto e barbudo, segurando duas seringas contendo duas poderosas drogas, na palma de suas mãos. Uma droga é chamada de LD50, a outra de “Azul Profundo”. Com a rapidez em que estão acontecendo os fatos, Douglas não consegue assimilar muitos detalhes ao seu redor. Mas mesmo assim precisa tomar uma decisão dentro de algumas frações de segundos. O negro confortável em seu espaço iluminado, pergunta com toda paciência: “Escolheste esta, ou aquela”. Mesmo estando estático, uma voz vinda da sua mente responde: “Azul Profundo”.
Aquela escolha inconsciente, o leva para um lugar obscuro, diferente de tudo que havia visto anteriormente. O cenário lembra a cidade de onde mora. Uma enorme nuvem negra em forma de espiral cobre toda a área da cidade. Raios caem por todos os cantos modificando a maneira como aquele espaço é percebido. Douglas é levado para o centro da nuvem, onde se transporta para um novo lugar inusitado. Sente um enorme choque, quando vê seu corpo preso em uma cama cheia de tubos, com várias pessoas o observando. Em seguida aparece à imagem do acidente de carro, tão recorrente em seus sonhos. Era pior que um pesadelo, pois poderia ficar condenado à prisão perpétua dentro daquele mundo. Não consegue mais ter controle dos acontecimentos, muito menos de sua própria mente. O medo do desconhecido o aterroriza a todo instante. Não havia como ir contra a uma escolha que havia sido feita. Seu corpo fica enfraquecido com a viagem, perdendo suas forças até cair em um túnel azul. Já estava aceitando tal fatalidade, mesmo não entendendo nada. O fim do túnel é um líquido parecido demais com um tanque de água. Ao mergulhar, percebe que é o fim de sua viagem alucinante. Sente que tudo está voltando ao normal. O tempo corre normalmente, em um espaço fixo. Corpo e mente, recomeça entrar em sincronia.
Acorda como estivesse ressuscitando, sentindo seguro ao perceber que voltou para casa. Descobre que está na sua banheira, vomita um pouco de água para voltar respirar. Seu corpo está murcho, deve ter desmaiado na banheira por um breve instante. O tempo se estendeu mais do que ele havia imaginado. “O tempo seria mesmo relativo, como na teoria”? Mesmo acordado não se convence de que está no mundo real. Apenas sabe que acordou de um pesadelo. Vomita para aliviar a tontura e o mal estar. Confuso, tenta se erguer e voltar ao normal. Enxuga-se e aproxima do seu espelho, falando sozinho: "Meu deus, eu adormeci na banheira! Parece que estou com uma ferida, minha testa ficou com um baita corte. Será que levei um tombo e fiquei inconsciente? Mas será real esse sangue? O que aconteceu comigo?"



(...) DESVIO DE SINAL, EXPERIÊNCIA “SR. NINGUÉM”, CENTRO DA CIDADE, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Vivo em uma terra obscura, onde mistérios e conflitos estão por todos os cantos. Um lugar onde medo e terror andam juntos em casos de total absurdo. Nuvens negras preenchem todo o céu, anunciando uma iminente tempestade. A escuridão da noite é quebrada por pequenos quadrados de luz, vindos de dentro das janelas dos prédios, das fábricas velhas e de algumas casas noturnas. É cada vez mais raro existir luz nos poucos postes que ainda restam. Podemos também nos localizar através dos néons de anúncios, ou fachadas luminosas de estabelecimentos comerciais e orgãos públicos. Tudo parece tão vazio, quando existe a escuridão. Se quiserem encontrar alguma pessoa, jamais fiquem na rua e procurem sempre achar um lugar seguro e agradável para se protegerem. Os seres sombrios, vigilantes da noite, não perdoam uma presa indefesa. Os desavisados que cruzarem a fronteira da escuridão são arrastados para as trevas e lá desaparecem.
Este lugar está um inferno e já faz um bom tempo em que estamos nessa fossa. A sensação de insegurança é constante. Estamos em uma “terra de ninguém”, onde as leis estão apenas nos papeis. Ao que me parece, todos já tiveram a oportunidade de venderem sua alma ao diabo por uma falsa sensação de proteção. Por conseqüência, acabamos perdendo toda fé no mundo e principalmente em nós mesmos. Não há mais salvação para a humanidade, pois já entramos na era do apocalipse. E a única solução para esta realidade, é ter que reconstruir tudo do zero.
Eu procuro encontrar serenidade e lucidez, andando pelas ruas durante o dia, ficando irreconhecível no meio de todos. Enquanto à noite encontro refúgio em qualquer lugar que esteja bem iluminado, sempre no anonimato. Acredito que eu possa encontrar entre tantas pessoas uma maneira para sobreviver. Enquanto isso eu continuo sendo um mero espectador, apenas observando o que acontece e tentar absorver um pouco do que resta de vida neste mundo de zumbis.
Sempre espero algo extraordinário. E quando olho o mundo com uma atenção mais aguçada, o extraordinário acontece. Ultimamente tenho visto coisas muito interessantes por aqui. Tenho observado um sem teto corrompendo as pessoas, com sua filosofia apocalíptica barata e os dominando totalmente com uma droga letal. Pode parecer um sujeito inválido e decadente perante aos olhos da maioria, entretanto ele é um dos maiores articuladores que eu já vi. Esta pessoa já causou muitos problemas com um detetive pragmático, tendo os olhos arrancados por este homem da lei. Justamente pelo mendigo ser o principal elo com o chefão do tráfico, mais conhecido como Trent Wayman. O responsável pelas merdas que acontecem por aqui. É Wayman quem controla os vícios, prazeres e medos de todos os cidadãos. Inclusive é um dos poucos conscientes da minha existência e um dos responsáveis por me fazer viver como um fantasma. Por isso estou longe de seu controle. Através do mendigo, vejo a extensão do poder que o tráfico exerce nesta cidade. Desde os guetos dominados pelas gangues, prostitutas e demais traficantes, até a delegacia de polícia (onde a droga apreendida é revendida ali mesmo), nada foge do controle de Wayman.
Tudo está conectado. Principalmente por estas duas drogas, o "Azul Profundo" e o LD50. Posso descrever o que vejo agora e provar o quanto estamos presos a esta loucura coletiva. Vejo que em uma cabine telefônica, dentro de um bar fuleiro, um homem careca está com um olhar apreensivo para os demais de fora. Percebo que se trata de uma pessoa paranóica. Consigo entender o que ele está falando ao telefone através de uma leitura labial. Sua conversa é um tanto estranha. Entendi algo mais ou menos desse jeito: “Dizem que ele é um manipulador de informações, perito em falsificações e um grande articulador. Tem acesso aos dados confidenciais de centenas de cidadãos, órgãos públicos e privados espalhados por toda a metrópole. É rápido, detesta deixar rastro de seu trabalho e quando menos esperamos está em um novo serviço. Dizem que é o melhor para fazer todos os tipos de conexões. Eu estou o seguindo, há algum tempo e ele sabe disso. Estou vasculhando tudo o que é de informação dele. Um dos seus nomes mais usado é Christian. Não sei se este é o seu nome verdadeiro, ou qual deva ser sua verdadeira identidade. Acredito que é um espião, mas não sei para quem ele trabalha. Eu o caço por todos os lados, como um gato atrás de um rato. Parece que agora estou mais próximo do que ele imagina. Sei quais são os seus pontos fracos e não haverá opção de não confiar em mim. Mandei uma mensagem para que possamos nos encontrar, duvido que recuse tal oferta”. Esse Christian de que tanto o careca fala, é um dos grandes colaboradores de Trent Wayman, inclusive teve um caso bastante estranho com a garota que o detetive salvou das garras daquele mendigo. Aquele careca parece algum dos inimigos de Trent Wayman. Fico apavorado em saber demais, pois tenho medo que existam outro observadores além de mim. Eu tenho medo de fechar os olhos e não saber mais onde estou. A minha única segurança é estar perdido entre tantos corpos e faces diferentes que formam uma só multidão. Por isso me chamo Sr. Ninguém, pois mesmo existindo em um espaço e tempo determinado, dentro de uma sociedade específica, controlado por uma cultura dominante, não possuo identidade alguma, muito menos traços de personalidade, que possam definir realmente quem eu sou.

(...) NOVO SINAL ENCONTRADO, EXPERIÊNCIA FRANK, ESTAÇÃO DE TREM, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Onde estou existe um enorme fluxo de pessoas passando com pressa. Correndo contra o tempo para alcançarem uma das várias linhas de trens, que os levarão aos seus determinados destinos. Cada passageiro sabe muito bem para onde vai e o que cada um deles farão quando chegarem ao ponto final. O meu caso é o mais complicado, pois não sei para onde vou e qual caminho devo seguir para chegar ao destino certo. Estou à procura do homem, que me colocou nesta situação. Estou perdido nesta estação, com a esperança de localizá-lo e obter as respostas que tanto procuro. Esta busca está cada vez mais complexa e sem uma solução plausível. Estou andando sem rumo por um longo tempo. E quando penso estar perto de encontrar Trent Wayman, mais estou longe de sua presença. É como caçar um homem invisível. Não está sendo nada fácil. Uma vez dentro do mundo de Wayman é o suficiente para começarmos a enlouquecer. Às vezes não encontro vantagem em ser um detetive, por não conseguir fazer nada para mudar a situação.
Em cada estação de trem, encontro os mesmos detalhes comuns entre todas elas. As características semelhantes fazem-me acreditar, que estou preso em um limbo. Ao desembarcar pela primeira vez por aqui, é como estivesse passado diversas vezes, entrando e saindo por várias plataformas de um mesmo lugar. Faz tempo que eu vou e volto, parto e retorno, tudo para encontrar uma nova pista incerta, um vulto, ou sinal, que me leve para outras estações ferroviárias, somente para resolver o caso do LD50.
Eu não temo por minha vida, apenas me preocupo com as pessoas que Wayman pode prejudicar. Tão indefesas em suas mãos, sendo manipulados por essa alucinação coletiva. Uma vez cheguei a pensar que havia exterminado aquela “anomalia humana”, só que ele se recusa a morrer. Ele simplesmente sumiu de minha vista para muito longe. Penso em recuperar o curso do tempo perdido, anulando as conseqüências de certos acontecimentos e recomeçar tudo novamente. Mas a todo o momento, um acumulo de fatos novos trazem conseqüências a serem administradas. Quanto mais busco retornar ao ponto zero do qual parti, mais me distancio dele. Uma voz me alerta, “para morrer, basta não ser mais visto”. Viro-me e tento encontrar aquela voz. Apenas vejo a palavra “LD50”, pichado de vermelho no vagão de um trem. Tenho que pegar este trem, talvez este seja o certo. Gostaria de poder ver o fim da linha. “Um dia você conseguirá Frank”.


(...) DESVIO DE SINAL, EXPERIÊNCIA GIULIA, EDFÍCIO FÊNIX, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Será que encontrarei Christian neste novo lugar? Estou vivendo no limiar da realidade e da loucura, não há nada mais que eu possa fazer para me proteger, a não ser cometer suicídio. Será que Christian também estará do outro lado? Terá fim o meu tormento?
Na sacada de meu apartamento, subo no parapeito e preparo-me para jogar no imenso vazio. Quando cair, as pessoas de baixo vão parar por um instante o que estão fazendo, apenas para reparar no cadáver estendido no chão do asfalto. Assim terminará minha vida, enquanto os outros continuam com a sua ignorância, sem temerem pelo seu fim. Apenas pergunto-me, quem realmente irá sentir minha falta, quando deixar esse mundo louco? Eu sei que o detetive, que me salvou uma vez, irá questionar quais foram os seus erros. Mas isto não é nada, quando existem casos piores que o meu. Por isso, deixo de me preocupar com os outros e largo de uma vez este mundo. Muitos procuram proteção em um lugar seguro, em um momento como esse. Procuro simplesmente encontrar um local agradável para morrer. Assim terei uma morte chocante e comentada por todos os que me observam. Vão especular meus atos, tentarão desvendar minha conturbada mente. Uma simples ação espontânea levará toda a minha existência para a eternidade. Não haverá choro de saudade ou de tristeza. Serei apenas uma pessoa que será lembrada em algum dos assuntos dentro das inúmeras conversas do cotidiano. Um mero personagem intrigante, porém pouco importante na trajetória de suas vidas sem sentido.
Tudo começou com um sonho ingênuo de criança. Eu queria ser artista, amada por todos. Desde pequena fui muito criativa e bastante talentosa. Criava o meu próprio mundo dentro da minha casa. Dei vida aos meus amigos imaginários da minha mente para poderem brincar comigo. Era um meio de suportar a solidão na infância. Quando me tornei adolescente consegui tranqüilidade emocional para sair de casa mais cedo. Fui para cidade tentar a carreira de atriz e acabei conseguindo espaço em um teatro decadente. Conseguia ter toda a liberdade artística para fazer qualquer montagem teatral que eu quisesse. O tempo foi passando e continuei me apresentando no mesmo teatro. Aos poucos o público foi mudando de perfil. Deixei de ter crianças e adoráveis senhores de idade, para ter adolescentes pervertidos, idiotas metidos a intelectuais e um monte de viciados. O engraçado é que já havia achado esse tipo de vida fútil muito interessante e acabei resolvi viver tudo com mais intensidade. Havia muitas coisas que jamais tinha visto. Precisava de “asas” para me aproximar do “céu” inexistente. Acabei descobrindo o paraíso, quando fui vivenciar a realidade do meu público. Vi o que era o amor, a loucura e a força da liberdade, quando me apaixonei por Christian. Éramos viciados um no outro, juntamente com a “fantasia” que ele vendia para todos os demais viciados desta cidade. Conectava-me a outras pessoas estranhas, não menos importantes na estrutura desta cidade. Entre eles estão: Ismael, o mendigo telepático, vendedor de sonhos. Outro personagem intrigante é um andarilho que está em qualquer lugar, na hora em que desejar. Sempre presente invisível no meio da multidão. Inclusive existe um homem perdido no tempo e no espaço, sendo ele apenas um elo perdido em meio de tantas alucinações. Não poderia me esquecer de mencionar Trent Wayman, o homem que me levou às drogas, ou seriam as drogas que me levaram a ele? Seu poderoso alucinógeno me deu levou para a eternidade incerta, já nem me importo com que acontece nesta vida. Nem sei mais onde estou muito menos posso afirmar se estou viva ou morta, já esqueci o que é realidade em meio a tanta loucura. Tudo o que acreditava nesta vida não existe mais. Christian sumiu depois de ver o nosso filho morto. Talvez ele não consiga suportar a realidade da dor, sendo eu a única a sofrer por todos. Desde o seu desaparecimento, estou sendo vigiada pelo Sr. Ninguém e manipulada pela mente insana do mendigo Ismael. Talvez Hermano Jonas tenha razão em acabar com tudo isto, pois não há mais nada a ser salvo. Não existe mais alguém a quem eu possa me apegar.
O alto deste prédio me causa vertigem, sei que depois de eu pular, estarei em um novo lugar. Espero encontrar uma saída para esta loucura. Já fui eletrocutada, espancada, tive várias over doses, dei a luz a um bebê sem vida, tentei me enforcar sem sucesso, nem um tiro na cabeça apaga minha existência. Não consigo mais separar realidade de ilusão. Mesmo presa nas trevas, acredito na salvação e no milagre. Espero conseguir voar até o céu azul, porém neste momento só penso em cair e nunca mais voltar. Só estarei feliz quando um anjo me salvar e tirar deste sofrimento e me levar para um paraíso longe de problemas. Talvez no outro mundo eu me encontre com Christian. Ou talvez precise continuar vagando pelas trevas, até encontrar uma nova dimensão de paz e harmonia.

8 Vidas Lançadas em um Azul Profundo

Volta a Fan Fic: 8 Vidas Lançadas em um Azul Profundo. Para quem ainda não conhece a Fan Fic, é uma colagem de fragmentos de vários textos meus e de outros autores, porém é baseada na graphic novel Azul profundo de Warren Ellis.