CAPÍTULO 1: PERDIÇÃO
(...) SINAL DE ENTRADA, EXPERIÊNCIA DOUGLAS, SECRETÁRIA REGIONAL DE INFORMAÇÕES, COM VISUALIZAÇÃO EXTERNA: Sentado na cadeira, preso em um cubículo dentro da corporação em que trabalha, o jovem rapaz procura uma aspirina para aliviar a forte dor de cabeça. Revira as gavetas da escrivaninha e nada encontra. Vai ao banheiro molhar o rosto para amenizar um pouco a dor. Ao sair do banheiro, encontra sua subgerente, que lhe da uma bronca: “Todo dia você arruma um jeito de dar uma escapadinha no banheiro. Eu pedi os relatórios pra ontem e não to vendo nada pronto”. Ele responde ofegante, transpirando mais que o comum: “Já entreguei faz tempo essa merda e você continua me cobrando. Por favor, vê se não me enche mais o saco. Ta vendo que eu não estou me sentindo bem. Preciso estar morrendo pra prestarem atenção em mim? Aliás, tenho que sair mais cedo hoje. Preciso ver um médico pra mim”. A subgerente ri em tom de deboche: “Se quiser sair mais cedo não chegue atrasado. Eu quero os relatórios na minha mesa o mais rápido possível. Ah... E se está doente o problema é seu”. Douglas começa se irritar, aumentando sua dor de cabeça. Tenta respirar profundamente para não perder o controle.
Há tempos que Douglas não suporta mais o seu emprego. Ultimamente vem enfrentando problemas de saúde devido ao alto estresse de sua árdua jornada de trabalho. Toda noite acaba tendo pesadelos muito parecidos. Sempre relacionado com um acidente de carro. Não sabe ainda o quanto deve agüentar. Sua sensação é de alguém pagando por seus pecados em um purgatório parecido com o inferno.
Como Douglas conseguirá escapar dessa horrível "prisão"? “Precisa haver uma maneira de mudar tudo isso. Mas como será possível? Talvez se eu deixasse de existir”, pensa ele.
Todos parecem trabalhar em silêncio por ali, se existe diálogo, é apenas para comunicar o colega mais próximo sobre suas atividades. Entretanto um dos comentários que vem se tornando freqüentes entre os funcionários, é em relação às panes nos computadores da corporação. Muitos acreditam que seja devido às descargas elétricas, causando danos por todo sistema operacional. Por fim atrapalha bastante o serviço de Douglas, obrigando-o fazer um relatório semanal sobre os danos sofridos. Sempre que os colegas chegam para falar com Douglas, estão cobrando algum serviço, ou acabam reclamando dos seus relatórios. Tudo o que Douglas quer, é não ouvir a voz dos seus colegas e conseguir trabalhar em paz.
Ainda irritado com os comentários de sua subgerente, chega um colega ao seu lado e sussurra em seu ouvido: “Douglas. O chefe mandou avisar, que se você não entregar a revisão do relatório até o fim do dia, vai ser rebaixado ao cargo de arquivista”. Após ouvir tal sentença, Douglas acaba perdendo a paciência. Começa a empurrar seus colegas mais próximos, jogando longe pastas de arquivo e objetos próximos a ele. Nada consegue mais acalmá-lo. Seu rosto fica muito vermelho, chegando ao ponto de fumegar. Sente que não possui mais controle da razão, pois acabara de despertar seus demônios internos. Seu corpo vai inchando feito um balão vermelho, até finalmente estourar. Enfim Douglas explode feito uma bomba armada. O que sobra dele são apenas restos de seu corpo espalhado por todo o andar.
Se pensam que isto é o fim da história, não é mesmo. Tão pouco para Douglas, que acaba de deixar aquela realidade opressora. Sua consciência continua existindo em um lugar diferente, onde está transportando todos os seus pensamentos. “Tudo está mudando rapidamente. O que é que está acontecendo? Não sinto mais dor. O sangue continua saindo do meu corpo. Estou sentindo uma leveza. Acho que estou flutuando. Devo parar ou continuar? Quero parar! Sim, tudo está paralisado. Sinto pela primeira vez a possibilidade de ter o controle de tudo”.
Em um flash Douglas aparece em vários lugares surreais, em um curto período temporal. Havia quebrado a barreira do espaço e do tempo em poucos segundos. A primeira pessoa com quem se depara é um homem negro, alto e barbudo, segurando duas seringas contendo duas poderosas drogas, na palma de suas mãos. Uma droga é chamada de LD50, a outra de “Azul Profundo”. Com a rapidez em que estão acontecendo os fatos, Douglas não consegue assimilar muitos detalhes ao seu redor. Mas mesmo assim precisa tomar uma decisão dentro de algumas frações de segundos. O negro confortável em seu espaço iluminado, pergunta com toda paciência: “Escolheste esta, ou aquela”. Mesmo estando estático, uma voz vinda da sua mente responde: “Azul Profundo”.
Aquela escolha inconsciente, o leva para um lugar obscuro, diferente de tudo que havia visto anteriormente. O cenário lembra a cidade de onde mora. Uma enorme nuvem negra em forma de espiral cobre toda a área da cidade. Raios caem por todos os cantos modificando a maneira como aquele espaço é percebido. Douglas é levado para o centro da nuvem, onde se transporta para um novo lugar inusitado. Sente um enorme choque, quando vê seu corpo preso em uma cama cheia de tubos, com várias pessoas o observando. Em seguida aparece à imagem do acidente de carro, tão recorrente em seus sonhos. Era pior que um pesadelo, pois poderia ficar condenado à prisão perpétua dentro daquele mundo. Não consegue mais ter controle dos acontecimentos, muito menos de sua própria mente. O medo do desconhecido o aterroriza a todo instante. Não havia como ir contra a uma escolha que havia sido feita. Seu corpo fica enfraquecido com a viagem, perdendo suas forças até cair em um túnel azul. Já estava aceitando tal fatalidade, mesmo não entendendo nada. O fim do túnel é um líquido parecido demais com um tanque de água. Ao mergulhar, percebe que é o fim de sua viagem alucinante. Sente que tudo está voltando ao normal. O tempo corre normalmente, em um espaço fixo. Corpo e mente, recomeça entrar em sincronia.
Acorda como estivesse ressuscitando, sentindo seguro ao perceber que voltou para casa. Descobre que está na sua banheira, vomita um pouco de água para voltar respirar. Seu corpo está murcho, deve ter desmaiado na banheira por um breve instante. O tempo se estendeu mais do que ele havia imaginado. “O tempo seria mesmo relativo, como na teoria”? Mesmo acordado não se convence de que está no mundo real. Apenas sabe que acordou de um pesadelo. Vomita para aliviar a tontura e o mal estar. Confuso, tenta se erguer e voltar ao normal. Enxuga-se e aproxima do seu espelho, falando sozinho: "Meu deus, eu adormeci na banheira! Parece que estou com uma ferida, minha testa ficou com um baita corte. Será que levei um tombo e fiquei inconsciente? Mas será real esse sangue? O que aconteceu comigo?"
(...) DESVIO DE SINAL, EXPERIÊNCIA “SR. NINGUÉM”, CENTRO DA CIDADE, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Vivo em uma terra obscura, onde mistérios e conflitos estão por todos os cantos. Um lugar onde medo e terror andam juntos em casos de total absurdo. Nuvens negras preenchem todo o céu, anunciando uma iminente tempestade. A escuridão da noite é quebrada por pequenos quadrados de luz, vindos de dentro das janelas dos prédios, das fábricas velhas e de algumas casas noturnas. É cada vez mais raro existir luz nos poucos postes que ainda restam. Podemos também nos localizar através dos néons de anúncios, ou fachadas luminosas de estabelecimentos comerciais e orgãos públicos. Tudo parece tão vazio, quando existe a escuridão. Se quiserem encontrar alguma pessoa, jamais fiquem na rua e procurem sempre achar um lugar seguro e agradável para se protegerem. Os seres sombrios, vigilantes da noite, não perdoam uma presa indefesa. Os desavisados que cruzarem a fronteira da escuridão são arrastados para as trevas e lá desaparecem.
Este lugar está um inferno e já faz um bom tempo em que estamos nessa fossa. A sensação de insegurança é constante. Estamos em uma “terra de ninguém”, onde as leis estão apenas nos papeis. Ao que me parece, todos já tiveram a oportunidade de venderem sua alma ao diabo por uma falsa sensação de proteção. Por conseqüência, acabamos perdendo toda fé no mundo e principalmente em nós mesmos. Não há mais salvação para a humanidade, pois já entramos na era do apocalipse. E a única solução para esta realidade, é ter que reconstruir tudo do zero.
Eu procuro encontrar serenidade e lucidez, andando pelas ruas durante o dia, ficando irreconhecível no meio de todos. Enquanto à noite encontro refúgio em qualquer lugar que esteja bem iluminado, sempre no anonimato. Acredito que eu possa encontrar entre tantas pessoas uma maneira para sobreviver. Enquanto isso eu continuo sendo um mero espectador, apenas observando o que acontece e tentar absorver um pouco do que resta de vida neste mundo de zumbis.
Sempre espero algo extraordinário. E quando olho o mundo com uma atenção mais aguçada, o extraordinário acontece. Ultimamente tenho visto coisas muito interessantes por aqui. Tenho observado um sem teto corrompendo as pessoas, com sua filosofia apocalíptica barata e os dominando totalmente com uma droga letal. Pode parecer um sujeito inválido e decadente perante aos olhos da maioria, entretanto ele é um dos maiores articuladores que eu já vi. Esta pessoa já causou muitos problemas com um detetive pragmático, tendo os olhos arrancados por este homem da lei. Justamente pelo mendigo ser o principal elo com o chefão do tráfico, mais conhecido como Trent Wayman. O responsável pelas merdas que acontecem por aqui. É Wayman quem controla os vícios, prazeres e medos de todos os cidadãos. Inclusive é um dos poucos conscientes da minha existência e um dos responsáveis por me fazer viver como um fantasma. Por isso estou longe de seu controle. Através do mendigo, vejo a extensão do poder que o tráfico exerce nesta cidade. Desde os guetos dominados pelas gangues, prostitutas e demais traficantes, até a delegacia de polícia (onde a droga apreendida é revendida ali mesmo), nada foge do controle de Wayman.
Tudo está conectado. Principalmente por estas duas drogas, o "Azul Profundo" e o LD50. Posso descrever o que vejo agora e provar o quanto estamos presos a esta loucura coletiva. Vejo que em uma cabine telefônica, dentro de um bar fuleiro, um homem careca está com um olhar apreensivo para os demais de fora. Percebo que se trata de uma pessoa paranóica. Consigo entender o que ele está falando ao telefone através de uma leitura labial. Sua conversa é um tanto estranha. Entendi algo mais ou menos desse jeito: “Dizem que ele é um manipulador de informações, perito em falsificações e um grande articulador. Tem acesso aos dados confidenciais de centenas de cidadãos, órgãos públicos e privados espalhados por toda a metrópole. É rápido, detesta deixar rastro de seu trabalho e quando menos esperamos está em um novo serviço. Dizem que é o melhor para fazer todos os tipos de conexões. Eu estou o seguindo, há algum tempo e ele sabe disso. Estou vasculhando tudo o que é de informação dele. Um dos seus nomes mais usado é Christian. Não sei se este é o seu nome verdadeiro, ou qual deva ser sua verdadeira identidade. Acredito que é um espião, mas não sei para quem ele trabalha. Eu o caço por todos os lados, como um gato atrás de um rato. Parece que agora estou mais próximo do que ele imagina. Sei quais são os seus pontos fracos e não haverá opção de não confiar em mim. Mandei uma mensagem para que possamos nos encontrar, duvido que recuse tal oferta”. Esse Christian de que tanto o careca fala, é um dos grandes colaboradores de Trent Wayman, inclusive teve um caso bastante estranho com a garota que o detetive salvou das garras daquele mendigo. Aquele careca parece algum dos inimigos de Trent Wayman. Fico apavorado em saber demais, pois tenho medo que existam outro observadores além de mim. Eu tenho medo de fechar os olhos e não saber mais onde estou. A minha única segurança é estar perdido entre tantos corpos e faces diferentes que formam uma só multidão. Por isso me chamo Sr. Ninguém, pois mesmo existindo em um espaço e tempo determinado, dentro de uma sociedade específica, controlado por uma cultura dominante, não possuo identidade alguma, muito menos traços de personalidade, que possam definir realmente quem eu sou.
(...) NOVO SINAL ENCONTRADO, EXPERIÊNCIA FRANK, ESTAÇÃO DE TREM, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Onde estou existe um enorme fluxo de pessoas passando com pressa. Correndo contra o tempo para alcançarem uma das várias linhas de trens, que os levarão aos seus determinados destinos. Cada passageiro sabe muito bem para onde vai e o que cada um deles farão quando chegarem ao ponto final. O meu caso é o mais complicado, pois não sei para onde vou e qual caminho devo seguir para chegar ao destino certo. Estou à procura do homem, que me colocou nesta situação. Estou perdido nesta estação, com a esperança de localizá-lo e obter as respostas que tanto procuro. Esta busca está cada vez mais complexa e sem uma solução plausível. Estou andando sem rumo por um longo tempo. E quando penso estar perto de encontrar Trent Wayman, mais estou longe de sua presença. É como caçar um homem invisível. Não está sendo nada fácil. Uma vez dentro do mundo de Wayman é o suficiente para começarmos a enlouquecer. Às vezes não encontro vantagem em ser um detetive, por não conseguir fazer nada para mudar a situação.
Em cada estação de trem, encontro os mesmos detalhes comuns entre todas elas. As características semelhantes fazem-me acreditar, que estou preso em um limbo. Ao desembarcar pela primeira vez por aqui, é como estivesse passado diversas vezes, entrando e saindo por várias plataformas de um mesmo lugar. Faz tempo que eu vou e volto, parto e retorno, tudo para encontrar uma nova pista incerta, um vulto, ou sinal, que me leve para outras estações ferroviárias, somente para resolver o caso do LD50.
Eu não temo por minha vida, apenas me preocupo com as pessoas que Wayman pode prejudicar. Tão indefesas em suas mãos, sendo manipulados por essa alucinação coletiva. Uma vez cheguei a pensar que havia exterminado aquela “anomalia humana”, só que ele se recusa a morrer. Ele simplesmente sumiu de minha vista para muito longe. Penso em recuperar o curso do tempo perdido, anulando as conseqüências de certos acontecimentos e recomeçar tudo novamente. Mas a todo o momento, um acumulo de fatos novos trazem conseqüências a serem administradas. Quanto mais busco retornar ao ponto zero do qual parti, mais me distancio dele. Uma voz me alerta, “para morrer, basta não ser mais visto”. Viro-me e tento encontrar aquela voz. Apenas vejo a palavra “LD50”, pichado de vermelho no vagão de um trem. Tenho que pegar este trem, talvez este seja o certo. Gostaria de poder ver o fim da linha. “Um dia você conseguirá Frank”.
(...) DESVIO DE SINAL, EXPERIÊNCIA GIULIA, EDFÍCIO FÊNIX, VISUALIZAÇÃO INTERNA: Será que encontrarei Christian neste novo lugar? Estou vivendo no limiar da realidade e da loucura, não há nada mais que eu possa fazer para me proteger, a não ser cometer suicídio. Será que Christian também estará do outro lado? Terá fim o meu tormento?
Na sacada de meu apartamento, subo no parapeito e preparo-me para jogar no imenso vazio. Quando cair, as pessoas de baixo vão parar por um instante o que estão fazendo, apenas para reparar no cadáver estendido no chão do asfalto. Assim terminará minha vida, enquanto os outros continuam com a sua ignorância, sem temerem pelo seu fim. Apenas pergunto-me, quem realmente irá sentir minha falta, quando deixar esse mundo louco? Eu sei que o detetive, que me salvou uma vez, irá questionar quais foram os seus erros. Mas isto não é nada, quando existem casos piores que o meu. Por isso, deixo de me preocupar com os outros e largo de uma vez este mundo. Muitos procuram proteção em um lugar seguro, em um momento como esse. Procuro simplesmente encontrar um local agradável para morrer. Assim terei uma morte chocante e comentada por todos os que me observam. Vão especular meus atos, tentarão desvendar minha conturbada mente. Uma simples ação espontânea levará toda a minha existência para a eternidade. Não haverá choro de saudade ou de tristeza. Serei apenas uma pessoa que será lembrada em algum dos assuntos dentro das inúmeras conversas do cotidiano. Um mero personagem intrigante, porém pouco importante na trajetória de suas vidas sem sentido.
Tudo começou com um sonho ingênuo de criança. Eu queria ser artista, amada por todos. Desde pequena fui muito criativa e bastante talentosa. Criava o meu próprio mundo dentro da minha casa. Dei vida aos meus amigos imaginários da minha mente para poderem brincar comigo. Era um meio de suportar a solidão na infância. Quando me tornei adolescente consegui tranqüilidade emocional para sair de casa mais cedo. Fui para cidade tentar a carreira de atriz e acabei conseguindo espaço em um teatro decadente. Conseguia ter toda a liberdade artística para fazer qualquer montagem teatral que eu quisesse. O tempo foi passando e continuei me apresentando no mesmo teatro. Aos poucos o público foi mudando de perfil. Deixei de ter crianças e adoráveis senhores de idade, para ter adolescentes pervertidos, idiotas metidos a intelectuais e um monte de viciados. O engraçado é que já havia achado esse tipo de vida fútil muito interessante e acabei resolvi viver tudo com mais intensidade. Havia muitas coisas que jamais tinha visto. Precisava de “asas” para me aproximar do “céu” inexistente. Acabei descobrindo o paraíso, quando fui vivenciar a realidade do meu público. Vi o que era o amor, a loucura e a força da liberdade, quando me apaixonei por Christian. Éramos viciados um no outro, juntamente com a “fantasia” que ele vendia para todos os demais viciados desta cidade. Conectava-me a outras pessoas estranhas, não menos importantes na estrutura desta cidade. Entre eles estão: Ismael, o mendigo telepático, vendedor de sonhos. Outro personagem intrigante é um andarilho que está em qualquer lugar, na hora em que desejar. Sempre presente invisível no meio da multidão. Inclusive existe um homem perdido no tempo e no espaço, sendo ele apenas um elo perdido em meio de tantas alucinações. Não poderia me esquecer de mencionar Trent Wayman, o homem que me levou às drogas, ou seriam as drogas que me levaram a ele? Seu poderoso alucinógeno me deu levou para a eternidade incerta, já nem me importo com que acontece nesta vida. Nem sei mais onde estou muito menos posso afirmar se estou viva ou morta, já esqueci o que é realidade em meio a tanta loucura. Tudo o que acreditava nesta vida não existe mais. Christian sumiu depois de ver o nosso filho morto. Talvez ele não consiga suportar a realidade da dor, sendo eu a única a sofrer por todos. Desde o seu desaparecimento, estou sendo vigiada pelo Sr. Ninguém e manipulada pela mente insana do mendigo Ismael. Talvez Hermano Jonas tenha razão em acabar com tudo isto, pois não há mais nada a ser salvo. Não existe mais alguém a quem eu possa me apegar.
O alto deste prédio me causa vertigem, sei que depois de eu pular, estarei em um novo lugar. Espero encontrar uma saída para esta loucura. Já fui eletrocutada, espancada, tive várias over doses, dei a luz a um bebê sem vida, tentei me enforcar sem sucesso, nem um tiro na cabeça apaga minha existência. Não consigo mais separar realidade de ilusão. Mesmo presa nas trevas, acredito na salvação e no milagre. Espero conseguir voar até o céu azul, porém neste momento só penso em cair e nunca mais voltar. Só estarei feliz quando um anjo me salvar e tirar deste sofrimento e me levar para um paraíso longe de problemas. Talvez no outro mundo eu me encontre com Christian. Ou talvez precise continuar vagando pelas trevas, até encontrar uma nova dimensão de paz e harmonia.
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